terça-feira, 28 de setembro de 2010

Carlos Ferrari, protagonista da própria história

Olá, pessoal, como estão? Esse pequeno perfil foi publicado na coluna Eu ABCD desta terça-feira. O texto poderia ter sido melhor trabalhado se eu tivesse mais espaço e mais tempo com o Carlos, que é uma pessoa fantástica e, embora diga que não quer ser visto como exemplo, é sim um exemplo pra muita gente que reclama da vida. E até mesmo para mim...

Fiquem com um pedacinho da história desse homem que chegou lá. Aproveito para deixar o link do blog do Carlos, vale a pena ler, tem textos muito interessantes. Para ler, clique aqui.

Carlos Ferrari, protagonista da própria história

Morador da Região vai à luta para ocupar seu lugar no mercado de trabalho e na vida


Por Camila Galvez


Foto: Antonio Ledes

Quando Carlos Ferrari estudava Administração no antigo IMES, hoje USCS (Universidade Municipal de São Caetano), enviou seu currículo para uma vaga de estágio. No documento, descreveu suas qualificações, desde o curso técnico em publicidade até a graduação que ainda não havia concluído. Considerava-se de acordo com o perfil da vaga.

Ao chegar à empresa, porém, deixou muda a funcionária que deveria entrevistá-lo. Diante de tal comportamento, resolveu tomar a dianteira:

- Percebi que você está um pouco desconfortável. Enviei meu currículo porque acredito ser qualificado para o cargo, só precisaria de algumas pequenas adaptações para realizar o meu trabalho.

A iniciativa do candidato quebrou o gelo, mas mesmo assim Carlos não foi chamado para o estágio.

- A empresa não estava preparada para aceitar uma pessoa cega.

Hoje com 34 anos, casado e pai da pequena Catarina (com uma semana de vida), Ferrari tem um currículo extenso: formou-se em Administração, fez pós-graduação em Marketing e mestrado também em Administração. É vice-presidente da Avape (Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência), professor de Administração do Centro Universitário Ítalo-Brasileiro, presidente do Conselho Nacional de Assistência Social e ainda encontra tempo para ter um restaurante em Santo André. O fato de ser completamente cego desde os sete anos nunca foi um empecilho para que “fizesse o que tinha de fazer”.

Ferrari reconhece que, sem o apoio da família, jamais teria chegado tão longe. Seu pai, Sebastião Ferrari, foi um dos metalúrgicos da Volkswagen que, no fim dos anos 1970, formou um grupo com o objetivo de lutar pelos direitos das pessoas com deficiência no ABCD. A união, nesse caso, fez a força.

- A Avape oferece atendimento para todos os tipos de deficiências. Minha luta não é só para garantir os direitos dos cegos, mas de todos que têm algum tipo de limitação.

Muitas vezes essa limitação mora apenas na cabeça da família e, consequentemente, na do próprio portador de deficiência. Para Carlos, é essencial que as pessoas percebam que o familiar não deve ser trancado em casa, mas sim ter a oportunidade de interagir com outras pessoas, casar-se, ter um emprego e viver a própria vida.

- Assim poderá ser protagonista da sua história, como eu fui.

Sem se apresentar com um exemplo a ser seguido, Ferrari afirma querer viver a sua vida com os mesmos direitos que as pessoas ditas “normais”. Seus olhos podem não ver como a maioria, mas sua alma, esta enxergou – e continua enxergando - bem longe.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A história de uma adoção especial

Olá, pessoas! Faz tempo que não apareço por aqui, e devo desculpas a vocês. As coisas andaram meio corridas por conta da avaliação do primeiro semestre do curso de pós-graduação da ABJL. Produzi uma matéria sobre os alojamentos do Jardim Santo André, um bairro de Santo André. Ela será publicada no site do Texto Vivo, por isso não posso disponibilizá-la aqui ainda. Mas se alguém quiser ler antes, é só me pedir por e-mail. Tirei nota 9,5! *.*

Hoje venho contar a história de um casal que adotou uma criança em Santo André. Não falarei muita coisa para não estragar a surpresa da matéria.

Boa leitura!


A história de uma adoção especial

Ou como a vida de uma família de Santo André mudou com a chegada do tão esperado filho e das surpresas que isso proporciona


Por Camila Galvez

Foto: Luciano Vicioni


- Temos um menino, branco, 10 meses, saudável. Interessa?

Foi assim que Maria Helena Barizon Ferreira e José Alberto Ferreira Filho encerraram a espera de cinco anos para adotar uma criança em Santo André.

- Parece uma mercadoria, um produto que estavam oferecendo. Mas não importa, porque no fim das contas, deu certo.

O pai avalia assim, mas a mãe não ligou para o jeito como as funcionárias do Fórum de Santo André falaram. Afinal, guardaria para sempre aquela data na mente: 12 de julho de 2006. Foi neste dia, em ano de Copa do Mundo, que começou a realizar o sonho de ser mãe. Sonho esse que começou bem antes, em 1997, quando passou por quatro inseminações artificiais para tentar produzir o que a natureza teimava em não fazer sozinha: uma gestação.

As lembranças dessa época não são boas. Além da angústia da expectativa, Maria Helena sentia-se muito mal com os vários medicamentos que tinha de tomar para realizar o procedimento. Na igreja católica que frequenta, começou a gestação de uma ideia: por que não adotar?

- Pensei que Deus queria me dar um filho, mas talvez não por vias naturais, e sim um filho do coração.

Assim, o casal resolveu desistir da quinta inseminação e deu entrada com o pedido de adoção no Fórum. Passou pelos mesmos procedimentos que as 7.652 famílias do Estado de São Paulo que integram o Cadastro Nacional de Adoção, que hoje tem 1.510 crianças na fila, 400 só no ABCD (leia mais abaixo). A disparidade entre os números ocorre porque a maioria das famílias quer crianças com características específicas: meninas, brancas e com até três anos de idade. Embora a exigência tenha caído quase pela metade em um ano e meio, ainda é realidade: 38% dos futuros pais que estão na fila em todo o País só aceitam crianças brancas.

O pequeno Cauê, uma criança branca, era uma raridade, embora Maria Helena e José Alberto não fizessem exigências em relação à cor do bebê. Só queriam que ele tivesse até três anos. Maria Helena não entende por que demorou tanto para que aparecesse uma criança. Quando enfim o casal foi convidado para conhecer o bebê, ele tinha 10 meses de idade e uma pneumonia. Veio conhecê-los um pouco sujo, magrinho demais e com o nariz escorrendo, mas foi amor à primeira vista. Maria Helena não se conteve:

- Vem com a mamãe, pequeno!

E assim se iniciava uma rotina pela qual o casal ansiou muito. Mas essa rotina ainda viria carregada de surpresas e se tornaria bastante “especial”.

Todo dia, o dia todo
Cauê crescia, mas Maria Helena sentia que havia algo errado. Com um aninho o menino ainda não conseguia firmar o pescoço e as costas para se sentar. Precisava ser apoiado em travesseiros, como se vê na foto de seu primeiro aniversário, que Maria Helena me mostra orgulhosa. Ele já aparece com as bochechas mais gordinhas que na primeira foto que o casal tirou dele, logo quando chegou. Mas a preocupação com o desenvolvimento de Cauê só crescia na mente dos pais.

- Logo após o primeiro aniversário, levamos o Cauê ao neurologista, a pedido da pediatra. O neuro fez uma série de exames e nos sugeriu que procurássemos um psicólogo. O Cauê já tinha movimentos repetitivos e certa tendência a ficar alheio, o que trouxe às nossas vidas, pela primeira vez, a palavra autista.

O casal não sabia o que significava a síndrome, caracterizada por desvios de comunicação, atenção e imaginação, mais frequente em meninos do que em meninas, e cujos primeiros indícios ocorrem antes dos três anos de idade. Os autistas têm dificuldades de interagir com as pessoas, possuem comportamentos estereotipados, obsessão por partes de objetos, problemas na dicção, ausência ou pouca expressão facial, podem ser agressivos e apresentam inflexibilidade em quebrar rotinas.

Cauê tem hoje quatro anos e horários definidos para tudo, todo dia, o dia todo. Come um danoninho sentado no colo da mamãe e dentro do carro do papai após as refeições. Faz tratamentos com fisioterapeuta, psicólogo, fonoaudiólogo e ainda tem tempo para a equoterapia. Estuda em escola comum e deve começar a fazer musicoterapia em breve. Tudo bancado pelo papai.

- E não pesa no bolso, Alberto?

- Por enquanto dá para pagar. Espero que continue assim.

O próximo passo é readequar a nova casa, que está sendo construída ao lado da residência dos pais de Maria Helena, para que Cauê possa ter mais autonomia. O menino que brinca com um violão de brinquedo irá se orientar por meio de figuras que serão espalhadas pela casa. No bebedouro, o desenho de água. Nas gavetas, cada uma com um tipo de vestimenta, desenhos de meias, cuecas, camisetas, bermudas e calças. E assim continua o aprendizado diário da família. Afinal, como Alberto costuma dizer:

- Aprendemos mais com o Cauê que ele conosco.


400 crianças esperam por um lar na Região

Os abrigos das cidades do ABCD têm hoje 400 crianças e adolescentes à espera de uma nova família. Em contrapartida, 411 casais estão interessados em adotar na Região. A conta parece fácil, mas as exigências das famílias em relação ao sexo, idade e cor da pele dos menores diminuem a chance de que ganhem um novo lar.

São Bernardo é a cidade com mais crianças e adolescentes disponíveis para adoção: são 194, com 175 casais interessados em adotar. Em seguida vem Mauá, com 81 crianças e 27 casais; Diadema, com 45 crianças e 38 casais; São Caetano, com 39 crianças e 44 casais, Ribeirão Pires, com 25 crianças e nove casais; Santo André, com 16 crianças e 113 casais, e por último, Rio Grande da Serra, que não tem nenhum menor disponível para adoção no momento, mas tem cinco famílias interessadas.

Em Santo André, o Grupo de Apoio à Adoção Laços de Ternura, da Angaad (Associação Nacional dos Grupos de Apoio a Adoção), é coordenado pela advogada Shirley Van der Zwaan. Foi fundado pela Federação das Entidades Assistenciais de Santo André em 2001 e é considerado referência para pais e pretendentes à adoção na Região. O objetivo do grupo é orientar, subsidiar e acompanhar adotantes e pretendentes para que as adoções tenham êxito, contribuindo para que mais crianças e adolescentes possam desfrutar do direito de ter um lar.

De acordo com Shirley, o projeto tem registrado resultados significativos que vão desde a colocação em família substituta de crianças tidas como inadotáveis, até a desistência de postulantes à adoção, que com a ajuda do grupo, reconheceram-se como pessoas despreparadas. “Muitos pretendentes à adoção, depois de participar dos encontros do grupo, alteram no cadastro da adoção o perfil da criança pretendida, flexibilizando-se não simplesmente para aumentar as chances de terem um filho, mas porque acreditam que é possível amar uma criança independente de sua idade ou da cor da sua pele”, destacou a coordenadora.

Na Região, as cidades de São Bernardo e São Caetano também contam com grupos de apoio da Angaad.

domingo, 8 de agosto de 2010

A governanta de Mengele

Escrever essa matéria foi um exercício de paciência. Ela foi feita num dia em que compartilhei sentimentos de muita alegria e muita tristeza. Foram sentimentos contraditórios que ficaram no meu coração naquele dia, e acho que coloquei um pouco disso na matéria.

Conversar com Elza Gulpian foi uma tarefa difícil. Quando o Renan (o verdadeiro responsável por essa série sobre nazistas do ABC, eu sou mera auxiliar) me disse para ir visitá-la, já achei que daí pudesse sair uma boa história. Na primeira tentativa, não a encontramos em casa, apesar de ficar esperando por ela um bom tempo. Foi bom assim, pois acabei fazendo amizade com a filha dela, Carla, que fez com que fosse muito mais fácil falar com ela depois.

Para marcar a visita, telefonei para Elza, que não queria me receber. Disse que estava cansada, que os jornalistas já tinham explorado muito essa história e que não queria mais falar. No entanto, consegui convencê-la a ao menos me receber, e contar o que quisesse contar.

Aí está o que Elza me contou, acompanhada de uma boa xícara de café preparada por Carla. Uma das matérias mais gratificantes que já fiz na vida. Obrigada, dona Elza.

A governanta de Mengele


Elza Gulpian, que trabalhou para o nazista na década de 1970, conta detalhes sobre a rotina do “Anjo da Morte”


Por Camila Galvez



Elza Gulpian tinha 28 anos quando começou a trabalhar na casa de Pedro Mengue. O homem de estatura mediana e olhos claros tinha o hábito de andar sempre de calça e camisa social. Na cabeça, chapéu, como ainda mandava o costume dos anos 1930, embora estivessem nos anos 1970. Ela preparava salada de frutas para ele. Seu Pedro comia arroz e feijão, carne e frango, tudo preparado por Elza sem um pingo de sal.

- Ele fugia de sal. Escondia para que eu não usasse na comida. Acho que teve algum problema de saúde.

Seu Pedro escondia também outras coisas: sua identidade, seus filhos, seu passado como Joseph Mengele, médico nazista que matou mais de 400 mil pessoas no campo de concentração de Auschwitz e escolheu a região do Eldorado, em Diadema, como refúgio. Ali, viveu em uma chácara nas proximidades da Billings na qual cultivava um jardim com as próprias mãos.

- Além do jardim, também construía móveis simples, prateleiras e coisas assim. Na casa dele só havia móveis rústicos, ele gostava de comprar em lojas de antiguidades.

Um desses móveis era um baú trancado a chave, que Elza imaginava guardar a verdadeira identidade de Seu Pedro. Na época, ela não desconfiou de nada, nem mesmo quando limpava o quarto e deu de cara com uma espécie de documento.

- O que você está fazendo?

- Limpando, seu Pedro!

- Não é para você mexer nisso. Devolva já!

Ele tomou o documento das mãos de Elza sem que pudesse ver o nome que havia ali. Mas de uma coisa ela tem certeza:

- Não estava escrito Pedro. Mas como é que eu poderia imaginar quem ele era?

Sotaque

Com Elza, Mengele só conversava em castelhano. De família espanhola, ela estava acostumada com a língua.

- Ele não gostava de ficar sozinho. Quando dava minha hora de ir embora, ele me acompanhava até minha casa. Ficava conversando com meus pais. Depois ia caminhar pelas ruas do Eldorado, as mãos no bolso, enrolando para voltar.

Talvez Mengele temesse estar consigo mesmo. Talvez se lembrasse dos dias em que injetou tinta azul nos olhos de crianças, costurou veias de gêmeos ou dissecou pessoas vivas. Talvez ouvisse os gritos dos judeus que mandou assassinar nas câmaras de gás.

No entanto, não parecia se lembrar disso quando dava bailes em sua casa e recebia Elza, a irmã e outras amigas para noites animadas. Também não se lembrava de ser o “Anjo da Morte” quando a convidava para jantar ou quando ia com pai de Elza tomar cerveja.

- Certa vez trouxe o filho para o Brasil, e me apresentou como se fosse sobrinho. Quando fui entrevistada pela Polícia Federal, que procurava por ele, me mostraram a foto desse menino. Só então descobri que era filho de seu Pedro.

Uma vez por mês, Mengele recebia a visita de um homem de cerca de 70 anos, alto e magro, que sempre trazia consigo um envelope. Elza deduz que se tratava de dinheiro.

- Eu não questionava. Ele me pagava em dia, então não tinha por que desconfiar. Mas ele não trabalhava.

Mengele era mantido por uma rede de proteção a nazistas foragidos da Alemanha no pós-guerra, mesma rede que conseguiu escondê-lo até o dia de sua morte, supostamente em 1979.


Alergia

Pouco antes de Elza deixar a casa de Mengele, ele desenvolveu uma espécie de alergia de pele, jamais diagnosticada pelos médicos. Recebia semanalmente a visita de uma pessoa que lhe aplicava compressas de babosa. Todos os dias Elza esquentava a ferro lenços úmidos para colocar sobre o rosto e pescoço de Mengele, como uma forma de aliviar a coceira. Pouco tempo depois, ela deixou o emprego para trás para se casar, mas continuou tendo contato esporádico com Mengele.

- Ele já não estava pensando direito nessa época, não estava com a cabeça boa. Atravessava a rua sem olhar para os carros, andava sozinho sem rumo.

Elza não acreditou quando Liselotte Bossert, dona da casa em que Mengele vivia, contou-lhe que ele havia se afogado em Bertioga, litoral paulista.

- Fui até o imóvel porque eu achava que ele tinha se mudado. Mas estava tudo lá, as roupas no armário. Deduzi que ele tinha morrido mesmo.

Em 1985, sua ossada foi descoberta em Embu, e em 1992 exame de DNA comprovou tratar-se de Mengele.

Elza ainda moraria por dois anos na casa que pertenceu ao nazista. Hoje vive em uma casa modesta na região do Eldorado. Trabalha na casa de “alguns bons amigos”, olhando crianças. Foge de jornalistas, mas nos recebeu com uma xícara de café após alguma insistência.

- Não gosto de falar disso. Eu não tinha como saber quem ele era. Seu Pedro era uma pessoa normal.
Uma pessoa normal que matou milhares de pessoas e cometeu atrocidades com outras tantas apenas porque eram diferentes dele.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

No mundo dos Sabinos

No último fim de semana estive na Sabina Escola Parque do Conhecimento de Santo André com meus primos. Foi um passeio muito gostoso. A Sabina é uma ideia genial da Prefeitura de Santo André e vale a pena ser divulgada. Pra quem tem pequenos pimpolhos de férias em casa, é um santo remédio!

No Mundo dos Sabinos


Escola Parque de Santo André traz pinguins, tubarões e dinossauros para entreter a criançada

Por Camila Galvez

Foto: Antonio Ledes



- Como se chama o dinossauro, Tabata?

- Ceratosauro.

- E o que ele come?

- Carne.

- Come muito ou pouco?

- Pouco.

- Pouco? Mas ele é grandão, você acha que ele come pouco e enche o barrigão?

- Ele come um monte!

Tabata, 4 anos, diverte-se com o jogo de perguntas da mãe, Fabiane Carrion, que sempre leva a filha para passear na Sabina Escola Parque do Conhecimento, em Santo André. O parque reúne diversas atrações com um único objetivo: educar brincando.

“Se há um significado, a criança consegue absorver o conteúdo. Essa é nossa intenção: ensinar de maneira interdisciplinar. Ao ver os pinguins de Magalhães, uma das atrações preferidas do parque, a criança pode aprender conceitos que vão desde educação ambiental até matemática”, destacou a coordenadora geral da Sabina, Silvia Fernanda Sanchez.

E não são só os pinguins, que parecem vestir ternos e ficam muito à vontade ao posar para as fotos das crianças, as atrações favoritas da molecada. Tem também o aquário, que reúne no mesmo hábitat tubarões, arraias, baiacus, moreias e outros peixes, e onde o pequeno Lucas, 1 ano, olhos colados no vidro, observa tudo como se quisesse entrar para nadar também. O menino é supervisionado pela mãe, Rita de Cássia Massarini, que também trouxe o filho Raul, de 3 anos:

- “Mãe, me leva para ver o dinossauro?”. É assim que o Raul me pede pra vir na Sabina. Ele adora tudo isso aqui, está pedindo para vir desde o começo das férias.

A Sabina, que ganhou esse nome por causa dos sabinos, um povo que viveu na península ibérica no período de formação de Roma, está com funcionamento diferenciado no período de férias escolares das crianças. O parque abre para visitação de terça-feira a domingo, das 9h às 17h30, sendo que a bilheteria fecha às 16h, até o dia 30/07. Preparem-se papais: para ver tudo, é preciso ter disponível, no mínimo, três horas para o passeio.

Baixinhos e nem tanto -- Mas não é só a criançada que se diverte. Os pais também podem relembrar os conhecimentos de física, química e biologia no piso superior do parque. Ali, microscópios mostram coisas como pele e sangue de sapo, formigas, piolhos e borboletas. É possível ainda fazer a festa na área de musicalização, onde materiais recicláveis se tornam instrumentos musicais.

Há também atrações como o serpentário, uma réplica de Tyranossaurus Rex, outra do Ceratosauro (que se mexe, faz barulho e assusta a criançada), a nave simuladora e um robô que te recebe com um “Oi, tudo bem” e sabe até mesmo falar o seu nome – se você disser a ele qual é, claro.

E para os pequenos de até cinco anos, o espaço Trakitanas reúne atividades de pintura, desenho, marionetes e brinquedos de montar. É lá que me despeço de Tabata, apressada demais que está para brincar no escorregador vermelho do espaço.

- Tchau tia!

Serviço: A Sabina Escola Parque do Conhecimento fica na rua Juquiá, s/nº, Bairro Paraíso (entrada na altura do nº 135). Os ingressos são grátis para alunos e professores das escolas municipais de Santo André, para crianças menores de 5 anos e pessoas com deficiência. Os demais visitantes pagam R$ 10, com meia-entrada para estudantes, professores, servidores públicos andreenses, aposentados e idosos acima de 65 anos. Mais informações podem ser obtidas no telefone 4422-2001.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Minha casa, minha prisão

Olá, pessoal, tudo bem? Estou meio sumida porque concentrei minhas forças na matéria que estou fazendo para a pós. É uma grande reportagem sobre os alojamentos do Jardim Santo André, um bairro de Santo André que conheço desde o início deste ano, quando um senhor morreu num deslizamento de terra em área de risco. Quando finalizar, vou publicá-la por aqui para quem se interessar em ler.

Enquanto isso, fiquem com a história de Edson, cadeirante que perdeu a cadeira de rodas - e o direito de ir e vir - por causa da rua esburacada na qual ele vive, no Parque América, em Rio Grande da Serra. Espero que gosstem e, se lerem, deixem ao menos um recadinho dizendo que passaram por aqui pra que eu não me sinta tão mal ao ver esse "0 comentários" aí embaixo... *momento drama*


Minha casa, minha prisão

Edson Luiz dos Santos perdeu a cadeira de rodas e a liberdade por causa de uma rua esburacada no Parque América, em Rio Grande da Serra


Por Camila Galvez


Foto: Luciano Vicioni



A prisão de Edson Luiz dos Santos poderia ter começado há nove anos num mergulho na represa Rebizzi que lhe tirou o movimento dos braços e das pernas. Edson ficou tetraplégico e engrossou a lista dos mais de 25 milhões de brasileiros que possuem algum tipo de deficiência física, conforme o último Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

- Quebrei o pescoço. Tive de desviar de uma criança. Não tinha outro jeito.

A prisão de Edson, no entanto, começou há cerca de três meses, quando a cadeira de rodas motorizada que lhe faz as vezes de pernas quebrou. O motivo: o estado da rua Jundiaí, no Parque América, em Rio Grande da Serra. A via de terra, com esgoto correndo a céu aberto, é tão cheia de buracos que até o carro no qual chegamos teve dificuldades para subir a pequena ladeira. Imagine então como é se movimentar ali com uma cadeira de rodas. Edson precisou da ajuda de três pessoas para fazer um trajeto curto pela vizinhança, enquanto esbravejava.

- Enrosca nas pedras e nos buracos. Quando caí, me ralei inteiro. Não dá para continuar assim.

O orçamento da cadeira de rodas feito pela Prefeitura da cidade ficou em R$ 8,5 mil, de acordo com o cadeirante. Ali, pedem para que Edson tenha paciência, pois o processo está na área jurídica, em análise. Paciência, no entanto, é tudo o que ele não tem.

Há duas semanas, um amigo de Edson o levou até a Prefeitura. Edson desceu da cadeira e deitou no calçamento da entrada, com a intenção de atrapalhar os que por ali passavam. Foi a forma que encontrou de protestar.

- Se demorarem demais para resolver o problema, vou fazer de novo.

O homem de barba e cabelos encaracolados castanhos tem um semblante nervoso. Pouco sorri, e os olhos, também castanhos, parecem tristes por detrás das lentes amareladas dos óculos. Ele sente raiva.

Acidente - Adenizia Aparecida Matias Rodrigues foi chamada ao hospital às pressas naquele domingo cuja data tem na ponta da língua: 28 de outubro de 2001. O telefone tocou e disseram que o marido tinha sofrido um acidente, mas estava consciente. Tranquilizada, a ruiva de olhos quase verdes chegou ao hospital para encontrar Edson com um colar cervical e um diagnóstico para o resto da vida.

- Tivemos de nos adaptar, eu e meu filho, que na época tinha seis anos. Conseguimos erguer nossa casa, fazer as coisas aos poucos. Mas agora, com esse problema, o Edson está me deixando quase maluca.

Edson fica nervoso de ficar preso na casa, construída nos fundos da residência da mãe de Adenizia. Sua distração é um computador com internet, que o ajuda a enviar e-mails com fotos do estado da rua para todos os lugares que consegue imaginar. Edson garante que só vai parar de lutar quando conseguir o que quer. E não é apenas uma cadeira de rodas nova.

- Só calo a boca quando tiver a cadeira, o esgoto e o asfalto.

A tríade devolveria a Edson apenas o direito comum a todo cidadão, previsto na Constituição Brasileira: ir e vir.

Bairro é motivo de disputa entre Rio Grande e Santo André

O bairro onde o cadeirante Edson Luiz dos Santos vive está no meio de uma disputa judicial. O Parque América, localizado em área de mananciais, foi loteado por uma imobiliária de Rio Grande da Serra na década de 1980, mas parte do território, que abriga hoje cerca de 62 famílias, pertence à cidade de Santo André.

A rua Jundiaí é apenas uma das várias vias abandonadas pelo poder público. Ali o que se vê em dias secos como os de agora é muita poeira, buracos e esgoto correndo a céu aberto. Quando chove, as ruas se transformam em lamaçal. A disputa judicial causou um embargo que impede que sejam realizadas as melhorias prometidas quando os terrenos loteados foram vendidos aos moradores.

A Prefeitura de Rio Grande da Serra afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que oito ruas do bairro serão pavimentadas e 16 vão receber manutenção, incluindo a rua Jundiaí. Os trabalhos já começaram, mas não há data prevista para conclusão. Além da cadeira, Edson vai ter de aguardar também a manutenção.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O inverno de Sérgio

Não. Eu não sou apenas jornalista. Sou, antes de tudo, humana. E não adianta um professor vir me dizer no primeiro dia de aula que aqueles que acreditam no jornalismo utópico devem desistir do curso ali. Fui até o fim. Fiz os quatro anos de curso mas somente agora, quase três anos depois de formada, percebo o que realmente gosto de fazer.

O homem que deu título a esse texto mexeu comigo como pessoa. Ver o nível de degradação ao qual ele chegou me deixou arrasada, destruída a ponto de chegar na redação com um peso sobre os ombros que nem sei descrever. Ainda mais porque causei uma briga entre ele e a mulher que também aparece no texto simplesmente porque o convenci a aceitar ajuda. Sim, quero jogar limpo com quem ler o texto: eu não fui só jornalista. Fui humana.

O inverno de Sérgio


Uma pequena história sobre um morador de rua de Santo André que aceitou ajuda


Por: Camila Galvez


Foto: Antonio Ledes



- Qual o seu sonho, Sérgio?

- Agora você me fez uma pergunta difícil. Ela diz que está me amando.

- Vem aqui, amore mio!

Sérgio de Azevedo Forato, 48 anos, não sabe mais dizer quais são seus sonhos. Vive com Neide Helena do Carmo, 50 anos, numa praça na avenida Lauro Gomes, em Santo André. Ali os dois dividem um colchão rasgado, dois cobertores coloridos e uma garrafa de plástico cheia de cachaça, que espanta o frio e a fome.

- O álcool acabou com a minha vida.

Sérgio tira do bolso uma folha de sulfite dobrada e envolvida por um plástico. Abre o papel e me entrega sem dizer o que é. Desdobro e leio o que está impresso até o fim para descobrir: ele cumpriu seis anos de detenção por assalto a mão armada. Na época, já bebia. Quando foi solto, chegou a fazer tratamento no A.A. (Alcoólicos Anônimos) de São Caetano. Ficou um ano e oito meses limpo.

- Tinha um trabalho e achei que estava bem o suficiente para tomar uma vodka. Não estava.

Neide se tornou companheira de Sérgio após a morte do marido. A mulher de cabelos crespos despenteados e sem os dentes da frente diz que está na rua desde então. E porque quer.

- Tenho família, mas não vi mais ninguém. E to amando. Quero viver com ele.

Sérgio também tem família. A mãe mora “ali do lado”, e o casal de filhos está bem de vida. Ele, porém, não quer ir para casa.

- Quando chego com o rosto inchado, levando a pinga e o cigarro na mão, minha mãe já sabe. E não me quer.

Mas Sérgio aceitou ir para a Casa Amarela, um local de acolhida para os moradores de rua de Santo André. Ali eles podem se banhar, tomar café da manhã e jantar. A casa é também a porta de entrada para o Programa de Atenção às Pessoas em Situação de Rua, responsável por encaminhar os moradores de rua para outros trabalhos sociais desenvolvidos na cidade. O espaço tem capacidade para atender 100 pessoas por dia. Em Santo André, cerca de 350 pessoas vivem nas ruas, de acordo com o último censo feito pelo Ministério do Desenvolvimento Social, em 2007.

No inverno, que chegou na última segunda-feira (21/06), o trabalho da educadora Nilza Carvalho, uma morena bonita e maquiada, é ampliado. No caso da praça, ela identificou a permanência dos moradores há cerca de 20 dias e, desde então, conversa com eles para tentar convencê-los a ir para a Casa Amarela.

- Precisamos conversar diariamente para criar o vínculo. Eles precisam confiar na gente para aceitar a ajuda.

Sérgio aceitou, e também Rafael, um jovem de 18 anos, mãos sujas e rosto de menino. Ambos entraram na kombi branca que os levaria para o abrigo, onde poderiam tomar banho e jantar. Se quisessem, poderiam ainda passar a noite no albergue da cidade.

Despeço-me de Sérgio no portão da Casa Amarela, e seus olhos parecem curiosos com o que está por vir. Talvez seu inverno seja menos frio agora.

Neide, no entanto, quis ficar. A vida na rua pode ser difícil, mas ela ainda não criou o vínculo necessário para sair dali. Ao menos por enquanto, o trabalho de formiguinha de Nilza continua.

Região oferece 411 vagas em albergues noturnos

As Prefeituras da Região ampliaram o atendimento aos moradores de rua neste inverno. Em Santo André, a pessoa recebe atendimento especializado na Casa Amarela por meio das assistentes sociais, que a ajudam a voltar para a família ou ir para um dos serviços oferecidos pela Prefeitura. No albergue noturno são 80 vagas, sendo 69 masculinas e 11 femininas. Munícipes podem ajudar o trabalho quando identificam locais nos quais há concentração de moradores de rua. Basta ligar para os telefones 4427-6207 ou 8397-9387.

Em São Bernardo há duas entidades de acolhimento para a população adulta em situação de rua: uma casa de integração, que atende 26 homens em fase de reintegração familiar ou autonomização, e um albergue, para atendimento de 100 pessoas em regime diuturno.

Em Diadema, o albergue disponibiliza 40 vagas por noite e o atendimento tem início às 18h30. As vagas podem ser procuradas até as 22h e no local é oferecido banho, pijama, chinelos, jantar e café da manhã. O horário de saída é às 6h30.

Em Ribeirão Pires, a Casa da Acolhida, em Ouro Fino Paulista, tem capacidade para receber até 45 pessoas. No momento, há 39 munícipes em situação de rua na Casa da Acolhida, mantida pela Prefeitura e pela Associação Caminho da Luz.

Em São Caetano, as duas entidades que atendem moradores de rua são privadas. Quando há necessidade de encaminhar alguém, é feito contato para verificar a disponibilidade de abrigar a pessoa. Por esse motivo, a cidade tem atuado na reinserção dos moradores às suas famílias. Mauá e Rio Grande da Serra não responderam a solicitação da reportagem.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Meu querido diário

Demorei, mas voltei! E com boas notícias: a matéria "Pelo direito ao sim" foi manchete do jornal e hoje está como terceira mais lida da editoria de Cidades do site. Ebaaaaaaaa! Minha primeira manchete de Jornalismo Litérario. *.*

Agora deixo com vocês com mais um texto, produzido na última quarta-feira, antes do feriado. Fui muito bem recebida pelo pessoal da E.E. Therezinha Sartori e adorei saber que ainda existe gente que acredita de verdade no poder transformador da educação. Sempre costumo dizer que é preciso investir em escola para diminuir o número de presídios. A matemática é tão simples, mas nossos políticos ainda não conseguiram enxergar que só uma educação de qualidade pode garantir o futuro desse país.

Meu querido diário

Escola estadual de Mauá retoma costume de escrever diários para ensinar língua portuguesa e ajudar crianças e adolescentes a se expressar

Por: Camila Galvez

Bárbara mostra suas joaninhas
Foto: Luciano Vicioni


“Hoje estou um pouco ansiosa. Vai vir um pessoal fazer uma reportagem sobre o Projeto Diário e também estou nervosa por causa da prova de matemática que estava super hiper mega difícil. Ainda bem que tivemos que parar para a entrevista.”

A folha de papel recebeu o texto de letra arredondada, escrito em caneta preta. Duas joaninhas vermelhas de bolinhas pretas e com olhos azuis foram caprichosamente pintadas e coladas na folha para acompanhar as palavras. Os olhos escuros de Bárbara Guedes, 10 anos, correm do papel para a equipe de reportagem que se movimenta na sala de aula do 5º ano do Ensino Fundamental da Escola Estadual Therezinha Sartori, em Mauá. Parecem pedir para que eu converse com ela. A professora me chama a atenção para o texto e para a menina de fala baixa e tímida, que desvia o olhar ao falar.

- Você já tinha feito diários, Bárbara?

- Já tinha escrito três, esse é o quarto. Minha mãe me deu um diário logo que aprendi a escrever.

- Ah, então você já tinha experiência na área. E o que você escreve?

- Escrevo muito o que estou sentindo. E alguns segredos também. Por isso guardo o diário no guarda-roupa e tranco com chave para ninguém ver.

Bárbara é uma entre os 3 mil alunos do 5º ano do Ensino Fundamental até o 3º do Ensino Médio que participam do Projeto Diário na escola. A mãe da ideia é a professora de língua portuguesa Rita de Cássia Fiacadori, que resolveu montar o projeto ao ouvir comentários dos alunos sobre diversos livros que fazem a cabeça dos jovens e que tem estrutura de diário, como O Diário de Bridget Jones, O Diário da Princesa e Diários de Vampiro, que inspirou também um seriado norte-americano transmitido por um canal de TV por assinatura. No projeto, crianças e adolescentes escrevem diários e a professora tem o compromisso de não ler todos os textos.

- Uma vez por semana os estudantes trazem o caderno para a sala de aula e eu dou visto para saber se eles estão realmente escrevendo. Também peço para que escolham um texto que possa ser exposto e passem para a folha de sulfite, que enfeitam a vontade. Nesse texto, faço correções de português, desde a gramática até a estrutura narrativa, e estimulo para que trabalhem diversos conceitos, como prosa, poesia, biografia, entre outros.

Desenhos, pinturas, colagens de fotos e recortes de jornais e revistas são os principais companheiros das palavras. Um estudante, inclusive, chegou a fazer um diário de imagens paralelamente ao projeto escrito. Mas alguns preferem se dedicar mesmo a desenhar as letras no papel, como é o caso de Lucas Medrado, de 12 anos.

“Hoje fui até Mauá e comprei um carrinho que eu tinha que montar a partir das peças que vinham na caixa. Foi meio difícil, demorei uma hora e meia para montar, mas quando consegui foi bem legal. Depois fui até a casa do meu primo, chamamos o irmão dele e começamos a brincar de esconde-esconde. Toda vez que aparecia uma oportunidade eu dava um susto neles e foi muito divertido”

- Escrever o diário é uma coisa diferente. Eu não tinha o hábito de falar sobre as minhas emoções e acho que posso me expressar melhor no papel. Comecei a conversar com o diário como se ele fosse meu amigo. Mas para os amigos de verdade não conto que faço diário, prefiro guardar isso para mim.

Tenho a impressão de que Lucas treinou para me dizer o que disse tamanha é a desenvoltura do menino. Seu diário é um caderninho com o símbolo do Palmeiras na capa, e a letra do garoto é difícil de compreender, mas isso não impede que ele desenvolva textos de qualidade naquele que aprendeu a chamar de companheiro. Lucas é um dos mais elogiados pela professora.

Rita explicou que, no início do trabalho com as turmas, os alunos costumam escrever muito sobre a rotina e pouco sobre o que sentem. Isso muda ao longo do ano, quando começam a encarar o diário como um amigo, processo que aconteceu com Lucas. Alguns falam sobre namoros e amizades, e uma adolescente da escola aprendeu a lidar com o luto escrevendo e fazendo colagens com fotos da mãe que morreu.

- A prática não melhora só a questão do português, mas também das relações sociais. O diário acaba se tornando um bom ouvinte para as crianças e jovens que, muitas vezes, não tem oportunidade de conversar com os pais ou outros amiguinhos sobre seus sentimentos.

A professora de olhos azuis vivos e cabelos claros me lembra ainda que o diário é também uma gostosa lembrança para o futuro. Que o diga essa repórter, que escreveu uns oito ou nove diários dos 9 aos 18 anos, e ainda guarda todos no fundo do armário para a mãe não ler.

Escola trabalha interdisciplinaridade na educação

A Escola Estadual Therezinha Sartori é um exemplo de como uma gestão firme e criativa pode mudar a educação pública. É possível perceber no rosto da diretora Rita de Fátima Sola o quanto ela acredita que a escola é transformadora. Suas mãos delicadas e cheias de anéis grandes não parecem tão fortes se olhadas de perto, mas se tornam de ferro quando observamos o trabalho desenvolvido na escola, que existe há 50 anos na Vila Noemia.

- Não é porque a escola é pública que o ensino deve ser uma porcaria. Aqui temos a cultura de resgatar o passado, não só por meio do Projeto Diário, mas também realizando gincanas com brinquedos antigos, exposições de trabalhos permanentes, murais, e outras atividades que retomem a infância que muitas crianças e adolescentes perderam com a vida moderna.

Nem todos gostam desse modelo, é fato, e nem todos participam tão ativamente quanto Rita gostaria. Mas ela insiste porque acredita que muitos pais perderam a conexão com os filhos e os jovens têm necessidade de que a escola aja para ensinar valores e moral.

A coordenadora pedagógica Mirian Marcondes Carvalho destacou ainda que a instituição trabalha a interdisciplinaridade, ou seja, não divide projetos e atividades por matérias, mas trabalha todas em conjunto. O conceito é bastante aplicado em avaliações da educação, como o Saresp (Sistema de Avaliação e Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) no nível estadual e o próprio Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que neste ano foi a única forma de ingresso de estudantes nas universidades federais do país.

- Apesar do Projeto Diário ser focado no português, outras disciplinas se aproveitam dele para trabalhar conceitos como psicologia, sociedade, antropologia, filosofia. A leitura e a escrita são os únicos meios de transformar a educação brasileira. Aqui acreditamos nisso.