segunda-feira, 21 de junho de 2010

O inverno de Sérgio

Não. Eu não sou apenas jornalista. Sou, antes de tudo, humana. E não adianta um professor vir me dizer no primeiro dia de aula que aqueles que acreditam no jornalismo utópico devem desistir do curso ali. Fui até o fim. Fiz os quatro anos de curso mas somente agora, quase três anos depois de formada, percebo o que realmente gosto de fazer.

O homem que deu título a esse texto mexeu comigo como pessoa. Ver o nível de degradação ao qual ele chegou me deixou arrasada, destruída a ponto de chegar na redação com um peso sobre os ombros que nem sei descrever. Ainda mais porque causei uma briga entre ele e a mulher que também aparece no texto simplesmente porque o convenci a aceitar ajuda. Sim, quero jogar limpo com quem ler o texto: eu não fui só jornalista. Fui humana.

O inverno de Sérgio


Uma pequena história sobre um morador de rua de Santo André que aceitou ajuda


Por: Camila Galvez


Foto: Antonio Ledes



- Qual o seu sonho, Sérgio?

- Agora você me fez uma pergunta difícil. Ela diz que está me amando.

- Vem aqui, amore mio!

Sérgio de Azevedo Forato, 48 anos, não sabe mais dizer quais são seus sonhos. Vive com Neide Helena do Carmo, 50 anos, numa praça na avenida Lauro Gomes, em Santo André. Ali os dois dividem um colchão rasgado, dois cobertores coloridos e uma garrafa de plástico cheia de cachaça, que espanta o frio e a fome.

- O álcool acabou com a minha vida.

Sérgio tira do bolso uma folha de sulfite dobrada e envolvida por um plástico. Abre o papel e me entrega sem dizer o que é. Desdobro e leio o que está impresso até o fim para descobrir: ele cumpriu seis anos de detenção por assalto a mão armada. Na época, já bebia. Quando foi solto, chegou a fazer tratamento no A.A. (Alcoólicos Anônimos) de São Caetano. Ficou um ano e oito meses limpo.

- Tinha um trabalho e achei que estava bem o suficiente para tomar uma vodka. Não estava.

Neide se tornou companheira de Sérgio após a morte do marido. A mulher de cabelos crespos despenteados e sem os dentes da frente diz que está na rua desde então. E porque quer.

- Tenho família, mas não vi mais ninguém. E to amando. Quero viver com ele.

Sérgio também tem família. A mãe mora “ali do lado”, e o casal de filhos está bem de vida. Ele, porém, não quer ir para casa.

- Quando chego com o rosto inchado, levando a pinga e o cigarro na mão, minha mãe já sabe. E não me quer.

Mas Sérgio aceitou ir para a Casa Amarela, um local de acolhida para os moradores de rua de Santo André. Ali eles podem se banhar, tomar café da manhã e jantar. A casa é também a porta de entrada para o Programa de Atenção às Pessoas em Situação de Rua, responsável por encaminhar os moradores de rua para outros trabalhos sociais desenvolvidos na cidade. O espaço tem capacidade para atender 100 pessoas por dia. Em Santo André, cerca de 350 pessoas vivem nas ruas, de acordo com o último censo feito pelo Ministério do Desenvolvimento Social, em 2007.

No inverno, que chegou na última segunda-feira (21/06), o trabalho da educadora Nilza Carvalho, uma morena bonita e maquiada, é ampliado. No caso da praça, ela identificou a permanência dos moradores há cerca de 20 dias e, desde então, conversa com eles para tentar convencê-los a ir para a Casa Amarela.

- Precisamos conversar diariamente para criar o vínculo. Eles precisam confiar na gente para aceitar a ajuda.

Sérgio aceitou, e também Rafael, um jovem de 18 anos, mãos sujas e rosto de menino. Ambos entraram na kombi branca que os levaria para o abrigo, onde poderiam tomar banho e jantar. Se quisessem, poderiam ainda passar a noite no albergue da cidade.

Despeço-me de Sérgio no portão da Casa Amarela, e seus olhos parecem curiosos com o que está por vir. Talvez seu inverno seja menos frio agora.

Neide, no entanto, quis ficar. A vida na rua pode ser difícil, mas ela ainda não criou o vínculo necessário para sair dali. Ao menos por enquanto, o trabalho de formiguinha de Nilza continua.

Região oferece 411 vagas em albergues noturnos

As Prefeituras da Região ampliaram o atendimento aos moradores de rua neste inverno. Em Santo André, a pessoa recebe atendimento especializado na Casa Amarela por meio das assistentes sociais, que a ajudam a voltar para a família ou ir para um dos serviços oferecidos pela Prefeitura. No albergue noturno são 80 vagas, sendo 69 masculinas e 11 femininas. Munícipes podem ajudar o trabalho quando identificam locais nos quais há concentração de moradores de rua. Basta ligar para os telefones 4427-6207 ou 8397-9387.

Em São Bernardo há duas entidades de acolhimento para a população adulta em situação de rua: uma casa de integração, que atende 26 homens em fase de reintegração familiar ou autonomização, e um albergue, para atendimento de 100 pessoas em regime diuturno.

Em Diadema, o albergue disponibiliza 40 vagas por noite e o atendimento tem início às 18h30. As vagas podem ser procuradas até as 22h e no local é oferecido banho, pijama, chinelos, jantar e café da manhã. O horário de saída é às 6h30.

Em Ribeirão Pires, a Casa da Acolhida, em Ouro Fino Paulista, tem capacidade para receber até 45 pessoas. No momento, há 39 munícipes em situação de rua na Casa da Acolhida, mantida pela Prefeitura e pela Associação Caminho da Luz.

Em São Caetano, as duas entidades que atendem moradores de rua são privadas. Quando há necessidade de encaminhar alguém, é feito contato para verificar a disponibilidade de abrigar a pessoa. Por esse motivo, a cidade tem atuado na reinserção dos moradores às suas famílias. Mauá e Rio Grande da Serra não responderam a solicitação da reportagem.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Meu querido diário

Demorei, mas voltei! E com boas notícias: a matéria "Pelo direito ao sim" foi manchete do jornal e hoje está como terceira mais lida da editoria de Cidades do site. Ebaaaaaaaa! Minha primeira manchete de Jornalismo Litérario. *.*

Agora deixo com vocês com mais um texto, produzido na última quarta-feira, antes do feriado. Fui muito bem recebida pelo pessoal da E.E. Therezinha Sartori e adorei saber que ainda existe gente que acredita de verdade no poder transformador da educação. Sempre costumo dizer que é preciso investir em escola para diminuir o número de presídios. A matemática é tão simples, mas nossos políticos ainda não conseguiram enxergar que só uma educação de qualidade pode garantir o futuro desse país.

Meu querido diário

Escola estadual de Mauá retoma costume de escrever diários para ensinar língua portuguesa e ajudar crianças e adolescentes a se expressar

Por: Camila Galvez

Bárbara mostra suas joaninhas
Foto: Luciano Vicioni


“Hoje estou um pouco ansiosa. Vai vir um pessoal fazer uma reportagem sobre o Projeto Diário e também estou nervosa por causa da prova de matemática que estava super hiper mega difícil. Ainda bem que tivemos que parar para a entrevista.”

A folha de papel recebeu o texto de letra arredondada, escrito em caneta preta. Duas joaninhas vermelhas de bolinhas pretas e com olhos azuis foram caprichosamente pintadas e coladas na folha para acompanhar as palavras. Os olhos escuros de Bárbara Guedes, 10 anos, correm do papel para a equipe de reportagem que se movimenta na sala de aula do 5º ano do Ensino Fundamental da Escola Estadual Therezinha Sartori, em Mauá. Parecem pedir para que eu converse com ela. A professora me chama a atenção para o texto e para a menina de fala baixa e tímida, que desvia o olhar ao falar.

- Você já tinha feito diários, Bárbara?

- Já tinha escrito três, esse é o quarto. Minha mãe me deu um diário logo que aprendi a escrever.

- Ah, então você já tinha experiência na área. E o que você escreve?

- Escrevo muito o que estou sentindo. E alguns segredos também. Por isso guardo o diário no guarda-roupa e tranco com chave para ninguém ver.

Bárbara é uma entre os 3 mil alunos do 5º ano do Ensino Fundamental até o 3º do Ensino Médio que participam do Projeto Diário na escola. A mãe da ideia é a professora de língua portuguesa Rita de Cássia Fiacadori, que resolveu montar o projeto ao ouvir comentários dos alunos sobre diversos livros que fazem a cabeça dos jovens e que tem estrutura de diário, como O Diário de Bridget Jones, O Diário da Princesa e Diários de Vampiro, que inspirou também um seriado norte-americano transmitido por um canal de TV por assinatura. No projeto, crianças e adolescentes escrevem diários e a professora tem o compromisso de não ler todos os textos.

- Uma vez por semana os estudantes trazem o caderno para a sala de aula e eu dou visto para saber se eles estão realmente escrevendo. Também peço para que escolham um texto que possa ser exposto e passem para a folha de sulfite, que enfeitam a vontade. Nesse texto, faço correções de português, desde a gramática até a estrutura narrativa, e estimulo para que trabalhem diversos conceitos, como prosa, poesia, biografia, entre outros.

Desenhos, pinturas, colagens de fotos e recortes de jornais e revistas são os principais companheiros das palavras. Um estudante, inclusive, chegou a fazer um diário de imagens paralelamente ao projeto escrito. Mas alguns preferem se dedicar mesmo a desenhar as letras no papel, como é o caso de Lucas Medrado, de 12 anos.

“Hoje fui até Mauá e comprei um carrinho que eu tinha que montar a partir das peças que vinham na caixa. Foi meio difícil, demorei uma hora e meia para montar, mas quando consegui foi bem legal. Depois fui até a casa do meu primo, chamamos o irmão dele e começamos a brincar de esconde-esconde. Toda vez que aparecia uma oportunidade eu dava um susto neles e foi muito divertido”

- Escrever o diário é uma coisa diferente. Eu não tinha o hábito de falar sobre as minhas emoções e acho que posso me expressar melhor no papel. Comecei a conversar com o diário como se ele fosse meu amigo. Mas para os amigos de verdade não conto que faço diário, prefiro guardar isso para mim.

Tenho a impressão de que Lucas treinou para me dizer o que disse tamanha é a desenvoltura do menino. Seu diário é um caderninho com o símbolo do Palmeiras na capa, e a letra do garoto é difícil de compreender, mas isso não impede que ele desenvolva textos de qualidade naquele que aprendeu a chamar de companheiro. Lucas é um dos mais elogiados pela professora.

Rita explicou que, no início do trabalho com as turmas, os alunos costumam escrever muito sobre a rotina e pouco sobre o que sentem. Isso muda ao longo do ano, quando começam a encarar o diário como um amigo, processo que aconteceu com Lucas. Alguns falam sobre namoros e amizades, e uma adolescente da escola aprendeu a lidar com o luto escrevendo e fazendo colagens com fotos da mãe que morreu.

- A prática não melhora só a questão do português, mas também das relações sociais. O diário acaba se tornando um bom ouvinte para as crianças e jovens que, muitas vezes, não tem oportunidade de conversar com os pais ou outros amiguinhos sobre seus sentimentos.

A professora de olhos azuis vivos e cabelos claros me lembra ainda que o diário é também uma gostosa lembrança para o futuro. Que o diga essa repórter, que escreveu uns oito ou nove diários dos 9 aos 18 anos, e ainda guarda todos no fundo do armário para a mãe não ler.

Escola trabalha interdisciplinaridade na educação

A Escola Estadual Therezinha Sartori é um exemplo de como uma gestão firme e criativa pode mudar a educação pública. É possível perceber no rosto da diretora Rita de Fátima Sola o quanto ela acredita que a escola é transformadora. Suas mãos delicadas e cheias de anéis grandes não parecem tão fortes se olhadas de perto, mas se tornam de ferro quando observamos o trabalho desenvolvido na escola, que existe há 50 anos na Vila Noemia.

- Não é porque a escola é pública que o ensino deve ser uma porcaria. Aqui temos a cultura de resgatar o passado, não só por meio do Projeto Diário, mas também realizando gincanas com brinquedos antigos, exposições de trabalhos permanentes, murais, e outras atividades que retomem a infância que muitas crianças e adolescentes perderam com a vida moderna.

Nem todos gostam desse modelo, é fato, e nem todos participam tão ativamente quanto Rita gostaria. Mas ela insiste porque acredita que muitos pais perderam a conexão com os filhos e os jovens têm necessidade de que a escola aja para ensinar valores e moral.

A coordenadora pedagógica Mirian Marcondes Carvalho destacou ainda que a instituição trabalha a interdisciplinaridade, ou seja, não divide projetos e atividades por matérias, mas trabalha todas em conjunto. O conceito é bastante aplicado em avaliações da educação, como o Saresp (Sistema de Avaliação e Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) no nível estadual e o próprio Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que neste ano foi a única forma de ingresso de estudantes nas universidades federais do país.

- Apesar do Projeto Diário ser focado no português, outras disciplinas se aproveitam dele para trabalhar conceitos como psicologia, sociedade, antropologia, filosofia. A leitura e a escrita são os únicos meios de transformar a educação brasileira. Aqui acreditamos nisso.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Pelo direito ao sim

Quem me conhece sabe que eu defendo direitos iguais para todos, independentemente da orientação sexual. Parece discurso pronto, mas tento mostrar, por meio das minhas matérias, que as pessoas não podem ser julgadas a partir de quem amam. O amor é um mistério e precisa permanecer assim. Se a gente tenta explicar demais, não chega a lugar nenhum e tira toda a magia da coisa. Se somos seres humanos, porque os direitos não são iguais? Porque falta iniciativa de quem pode: os políticos. Não só pra isso, infelizmente, mas pra muitas outras coisas.

Conheci o Luiz e o Ivan por intermédio do Marcelo Gil, da ong ABCD's, que faz a Parada do Orgulho LGBT de Santo André. Eu já achava o Marcelo um amor, e tinha certeza que amigos dele só poderiam ser do mesmo jeito. O Luiz e o Ivan abriram as portas da casa deles pra mim, me fizeram chá e um lanche de pão de forma com presunto e alguma coisa que eu não sei o que era, mas que estava muito, muito boa mesmo. Me mostraram os álbuns de fotos deles, me contaram suas histórias de vida. Deixei de ser só uma jornalista fria e distante para ser ouvinte, para sorrir com eles das alegrias e lamentar os momentos tristes pelos quais eles passaram em busca da aceitação. No fim, eles me convidaram até para o casamento deles, se um dia eles puderem se casar oficialmente.

Essa matéria não foi publicada ainda, e não sei quando vai ser, mas vocês poderão ler primeiro aqui (parece propaganda, né? O marketing é tudo! srsrsrsr). Repassem, porque um tiquinho de consciência não faz mal a ninguém.

Pelo direito ao sim

Projeto de lei do deputado José Genoino (PT) pode ajudar casais homossexuais a oficializar o relacionamento perante a lei

Por: Camila Galvez

Foto: Luciano Vicioni


A chácara foi decorada especialmente para a ocasião. O perfume das flores enche o ar e traz ao coração de quem o sente sensações de paz e prosperidade. A decoração não foi escolhida ao acaso, mas tem o toque e o jeito do casal. Enquanto a marcha nupcial ecoa pelos ouvidos dos convidados, ambos entram lado a lado vestindo ternos requintados enfeitados com pedras de strass. Sim, ambos vestem ternos, porque Ivan Batista Ferreira, 33 anos, e Luiz Fernando Albertino, 27 anos, são homens. E vivem juntos há quase 13 anos.

A cena acima mora na imaginação de Luiz, que a descreve com brilho nos olhos. Ele e Ivan gostariam de oficializar o relacionamento, que começou num bar em Sorocaba, no interior de São Paulo, e veio parar em Santo André, com o salão de beleza que mantêm juntos. No entanto, a lei sobre união civil que vigora hoje no país não os inclui. Exclui.

Atualmente tramita na Câmara Federal, sem data ainda para ser votado, um projeto de autoria do deputado federal José Genoíno (PT) que pode aproximar o casal de seu sonho. O texto não fala sobre casamento, mas sim união civil. Genoíno explica a diferença:

- Trata-se do reconhecimento de união estável entre pessoas do mesmo sexo para fins civis, tais como aposentadoria, pensão por morte, contrato de empréstimos, entre outros. Há pelo menos dez decisões judiciais que reconhecem esse direito no país, mas sem legislação específica, o que faz com que alguns Estados adotem e outros não. Minha intenção é unificar isso e garantir o direito a todos os brasileiros.

Países como Holanda, Bélgica, Canadá, França, Espanha, Uruguai, os estados norte-americanos de Massachussetts e Califórnia e a capital argentina, Buenos Aires, garantem esse direito aos cidadãos. No Brasil, o texto de Genoíno entra nesta semana em fase de debates na Casa. O deputado quer garantir que ele seja discutido em todas as esferas da sociedade antes de ser votado.

A aprovação de Luiz e Ivan o deputado já tem, e a de muitos outros homossexuais, como o presidente da ong ABCD’S (Ação Brotar pela Cidadania e Diversidade Sexual), Marcelo Gil. A ong é responsável por organizar a Parada do Orgulho LGBT de Santo André e, neste ano, também realizará o evento em Mauá. Gil lembra que o projeto de Genoíno oficializaria o que já é um direito de qualquer cidadão.

- Hoje o grupo LGBT tem 37 direitos negados pela Constituição Federal. Vivemos num Estado laico e uma lei desse tipo garantiria apenas que nossa vida fosse igual à dos outros brasileiros, que podem escolher um parceiro sem que o desejo sexual interfira no cumprimento dos direitos humanos. Também somos humanos, que o poder público não se esqueça disso.

Uma casa para dois

Na prática, a vida de Ivan e Luiz já é um casamento. Na mão esquerda de cada um há uma aliança prateada com um filete dourado no centro, presente de uma das funcionárias do salão de beleza. A casa com sala de parede vermelha, enfeites coloridos, um sofá listrado de roxo e branco, abriga uma família. O casal cria a sobrinha de Luiz, Tainá, desde os dois anos de idade. Na residência ainda convivem em harmonia inacreditável oito cachorros, três tartarugas, um passarinho e um gato, que descansa no meu colo enquanto tomamos chá e conversamos.

- Passamos 24 horas juntos. Moramos aqui, trabalhamos no salão. Acho que a gente só fica sozinho mesmo quando está dormindo.

Luiz conta que é assim desde que o acaso colocou os dois no mesmo barzinho, em Sorocaba. Vinte dias depois do encontro fatídico, ele já estava com as malas prontas para morar com Ivan.

- A casa era uma herança da minha mãe, e eu ia morar com meu pai lá.

Luiz interrompe.

- É, mas o pai dele se casou com outra mulher depois que a mãe dele faleceu e nós acabamos indo para lá. Aos poucos fomos ganhando móveis e utensílios dos amigos e montamos nosso lar.

Mas nem sempre as coisas foram fáceis para Ivan. Aos 18 anos, quando a família descobriu que ele era gay, acharam que era doença. Em tempos difíceis da AIDS, pai e mãe separaram copos, talheres e outros objetos que o filho usava. Entre os nove irmãos, Ivan era visto como aquele que não iria prosperar devido à sua “condição”. Um dos irmãos, inclusive, perseguia o adolescente para bater nele, pensando que assim conseguiria mudar o que Ivan é. Hoje aprendeu a aceitar não somente o irmão, mas também seu próprio filho homossexual. E Ivan provou para a família que podia ser alguém na vida: veio para São Paulo com a cara e a coragem e Luiz a tiracolo.

O início foi difícil, mas hoje tudo é mais tranquilo: o salão tem clientela estabelecida, o casal tem uma casa aconchegante e uma filha para chamar de sua, mesmo que a atual legislação ainda não permita a adoção de filhos por casais homossexuais. O que há é uma determinação judicial, um caso que serve de modelo para que os demais juízes autorizem esse tipo de adoção. Foi assim com um casal de lésbicas do Rio Grande do Sul que ganhou no STJ (Superior Tribunal de Justiça) o direito de adotar duas crianças e dar a elas o sobrenome de ambas.

- Nós queremos adotar mais três. Encher essa casa de bagunça e risada.

Mais um desejo de Luiz que a lei brasileira não garante. Até quando direitos de cidadãos serão negados para o público LGBT? É uma pergunta que os políticos brasileiros precisam começar a se fazer com urgência.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O observador

Fui fazer essa matéria no domingo de Dia das Mães. Acordei as 7h num domingo e fui cheia de pique encontrar o homem que tem um curioso apelido: Toninho das Orquídeas.

A matéria foi publicada aqui. Por falta de espaço na edição impressa do jornal, saiu com meros 1.400 caracteres. Mas pra quem frequenta esse humilde cantinho, há muito mais a saber sobre o tema. Trata-se de um alerta desesperado da mãe natureza. Precisamos ouvi-lo com urgência.

O observador


Para os olhos atentos de Toninho das Orquídeas, as nascentes da Serra do Mar estão sumindo


Por Camila Galvez

Foto: Antonio Ledes


No registro, Antonio Ialago. Na Serra do Mar, Toninho das Orquídeas. Aos 44 anos, magro, alto, bermuda bege de explorador, blusa preta de mangas longas, boné na cabeça e capa de chuva transparente, o homem tipo Indiana Jones sabe bem onde pisar. Não escorrega uma só vez, mas tem de dar a mão a esta repórter em várias ocasiões para evitar que ela se estatele no chão cheio de barro e poças d'água. Toninho pisa no solo escorregadio com a autoridade de quem anda ali desde os nove anos. E também com o desespero de quem acompanhou as mudanças que o clima vem provocando no bioma da Mata Atlântica, já tão ameaçado pelo desmatamento e a ocupação irregular de terrenos.

Antonio Ialago virou Toninho das Orquídeas por tentar proteger as flores que crescem sobre as árvores em direção ao sol, aproveitando-se de seus troncos e galhos para garantir a sobrevivência. Com sua fala rápida e ininterrupta, o ambientalista explica que removeu exemplares da mata para depois fazer a reposição da espécie.

- As orquídeas estavam desaparecendo porque as pessoas retiravam para vender. É difícil criar essa planta, e ela é cara, por isso a ganância do homem destruiu as flores que haviam na natureza. Comecei esse trabalho prevendo que isso aconteceria, portanto, consegui manter algumas unidades e promover o reflorestamento. Foi assim que ganhei o apelido.

Mas nem só de orquídeas vive esse ambientalista. Toninho conhece palmiteiros, ingazeiras, nascentes e riachos e faz um alerta: o aquecimento global está acabando com as nascentes da floresta no entorno de Paranapiacaba e região. A afirmação não é baseada em pesquisas científicas e métodos sistemáticos, mas na pura e simples observação praticada por um homem que nasceu em contato com a mata e que há 22 anos participa da Ong Caneco Verde (Clube dos Amigos da Natureza e da Ecologia), na qual atualmente ocupa o cargo de diretor de reflorestamento. Como um bom estudante, Toninho fez sua lição de casa: decorou a matemática da floresta. Ali, 23 riachos e córregos menos 15 é igual a oito, que foi o número que sobrou em apenas uma das trilhas que Toninho percorre como guia. Outra trilha tem matemática semelhante: oito cursos d'água menos seis igual a dois. Na subtração do homem das orquídeas, 21 nascentes deixaram de existir nos últimos 15 anos. E isso é só o começo.

Percorremos um pedaço de trilha embrenhados na mata. A chuva que cai em pingos finos, mas abundantes, não nos deixa avançar muito pelo barreiro. Em um trecho de cerca de 200 metros, passamos por um veio de água e uma cachoeira. Vejo água em abundância ali. Toninho explica:

- É a chuva. Quando chove a água corre, mas na época da seca o rio desaparece. Mesmo que haja água aqui, o que você está vendo não é nem a metade do que tinha antes.

- E vocês chegaram a medir essa quantidade, Toninho?

- É difícil medir com precisão, porque a região é bastante chuvosa. Mas observamos que os rios vem baixando cerca de 5 centímetros a cada ano. É um número preocupante.

As nascentes abastecem os rios que vão desaguar na represa Billings, o maior reservatório de água da Região Metropolitana de São Paulo, responsável por fazer sair o líquido mais precioso do Planeta Terra pelas torneiras de mais de 1,8 milhão de pessoas. Implantada na década de 1920 para produzir 33 mil litros por segundo de água, a represa está hoje no patamar de 11 mil litros por segundo. Mais uma vez a matemática da floresta entra em ação para constatar que o reservatório opera com apenas 1/3 da capacidade inicial. Os motivos? Poluição das águas por esgoto doméstico e industrial e o desmatamento, responsável pelo assoreamento e desaparecimento de nascentes d'água que alimentam o reservatório. Quem diz isso não sou eu nem Toninho, e sim o Proam (Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental), que realizou pesquisa sobre o tema em 2008.

Um exemplo da redução do volume de água dos rios que abastecem a represa pode ser visto na Fazenda Taguaruçu, território localizado no município de Mogi das Cruzes. É nela que, ao lado de uma igrejinha construída pela família de italianos proprietária do terreno em 13 de dezembro de 1945, vemos algo que um dia foi um rio, e hoje mais parece um filete de água que escorre de uma torneira com defeito. Os donos da fazenda construíram um sistema para fazer com que a força da água do rio operasse uma máquina para cortar madeira hidráulica. Hoje a máquina jaz ao lado do chão meramente molhado por onde corre mais água de chuva que de um rio propriamente dito.

- Minha mãe brincava nessa fazenda quando era criança e vivia levando bronca dos caseiros para sair de perto do rio. Era perigoso, porque se alguém caísse nele, poderia se afogar. Hoje não dá nem para molhar os pés.

O sorriso de Toninho é um sorriso triste de quem luta demais e vence pouco. Diante de tanta indiferença, o homem das orquídeas não desiste de fazer seu apelo:

- Precisamos diminuir o uso de combustíveis fósseis e a emissão de gás carbônico na atmosfera. Se não fizermos isso, os rios podem desaparecer, o que prejudicaria nossa própria vida.

O alerta é geral e urgente, mas parece que a população ainda não conseguiu enxergar o que os olhos castanhos de Toninho se cansaram de ver. Será preciso que a torneira seque. E se chegarmos nesse ponto, pode ser impossível voltar atrás.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A Central do Brasil é aqui

Vocês conseguem imaginar que, em plena era da Internet, com e-mail, Orkut, Twitter, Facebook, Skype e tantas outras formas de se comunicar, ainda existe gente que escreve cartas? Pois a arte de colocar as letras no papel continua viva, e tem muita gente que recorre a ela. Exemplo disso é o serviço prestado pelo Poupatempo no programa Escreve Cartas, que auxilia aqueles que têm dificuldades com a escrita. O programa foi criado após o sucesso do filme Central do Brasil, no qual a personagem de Fernanda Montenegro, Dora, escreve cartas em uma das mais importantes estações de trem do país.

Abaixo a história de três voluntárias super simpáticas e uma mulher cheia de esperança.

E para quem não assistiu ao filme, pode ter um gostinho nesse link.


A Central do Brasil é aqui


Na era da Internet, programa Escreve Cartas do Poupatempo de São Bernardo ajuda quem tem dificuldades com a escrita



Foto: Amanda Perobelli

Maria Luzia Barros Mendonça não se lembra exatamente quantos anos tinha, mas lembra-se bem de quando começou a escrever. Na época, a menina Maria morava na Mooca, bairro da Capital, com a mãe Olívia, analfabeta. A avó Afonsina vivia longe, no município de Mococa, interior de São Paulo, e Maria ri da cacofonia dos nomes do bairro em que passou a infância e a cidade que deu origem a sua família. A menina que começava a conhecer as letras escrevia cartas para a avó, a pedido da mãe. Quando os vizinhos descobriram, os serviços de Maria ganharam o bairro e a letra da simpática negra passou a viajar, fechada em envelopes, para diversos lugares do Brasil.

Hoje, aos 71 anos e vivendo em São Bernardo, Maria encontrou seu lugar: é uma das 29 voluntárias do Programa Escreve Cartas, da unidade do Poupatempo do município. Mais quarenta vagas estão atualmente abertas para interessados em participar do programa. Em plena era da Internet e das comunicações rápidas, homens e mulheres auxiliam quem tem dificuldades com a escrita a se comunicar.

A “escrevedora” Maria é também uma “faladora”. Gosta de conversar e não tem tempo para ficar parada. De pele negra, óculos no rosto e um tiquinho de vaidade nos anéis e pulseiras com temas religiosos, Maria tem riso e verbo solto.

- Sou voluntária no Poupatempo e também participo de trabalhos em outras entidades. Moro há 30 anos em São Bernardo e amo essa terra. Meus cinco filhos já me deram oito netos e dois bisnetos, tô de família criada. Agora quero ajudar os outros e, graças a Deus, sou uma mulher muito letrada, adoro ler e escrever. Assim fica fácil, né?

Maria faz parte da primeira leva do programa, que começou em 2008 na cidade, mas funciona há oito anos em outras unidades do Poupatempo. O índice de analfabetismo em São Bernardo é baixo se comparado ao das cidades da região Nordeste do país. No município do ABCD, 5% da população, ou seja, ao menos 40 mil pessoas, são praticamente cegas para as letras. Há ainda o que a educação chama de analfabeto funcional, que é a pessoa que frequentou a escola, mas não aprendeu o que deveria aprender. Esses não estão computados, mas também existem e precisam de ajuda para escrever suas cartas. São eles que Maria gosta de ajudar, assim como Dina Fernandes Chagas, que também faz parte da primeira turma de voluntários do programa.

- Assisti o filme Central do Brasil, com a Fernanda Montenegro, e fiquei louca, menina! Na hora quis procurar um lugar para ajudar os outros a escrever cartas. Soube do programa, mas na época ele só funcionava em São Paulo. Foi uma alegria quando vi um anúncio no jornal que o Poupatempo da minha cidade estava selecionando voluntários. Me inscrevi correndo.

Dina me revela sua idade ao pé do ouvido, mas não quer que eu conte aos leitores, desculpe. Posso dizer que ela parece mais nova do que realmente é, com seus cabelos loiro-claros, seus brincos, anéis e pulseiras feitos com capim dourado e seu vestido preto com miçangas marrons ao redor do decote. Pergunto se ela se identifica com Dora, a personagem de Fernanda Montenegro em Central do Brasil, filme de 1998 que conta a história de uma mulher amargurada que escreve cartas na estação de trem carioca até conhecer um garotinho capaz de fazê-la colocar o pé na estrada para ajudá-lo a reencontrar seu pai. Quem responde é outra escrevedora, Sônia Maria Cesari, que como Dina não revela quantos anos tem.

- Nós gostamos da Dora, mas somos mais importantes que ela. Aqui a gente escreve e manda a carta de graça, no filme ela escrevia e depois rasgava.

As “escrevedoras” de São Bernardo se envolvem mais com as histórias das pessoas para quem servem de mão e cérebro do que a Dora de Central do Brasil. Não chegaram ainda a sair rumo ao Nordeste para ajudar alguém, mas apenas o fato de ser um ouvido amigo, disposto a beber palavras como se bebe água, torna-as verdadeiras psicólogas, com uma vantagem: não cobram nada pelo tempo que disponibilizam.

- Trabalhei como educadora durante 31 anos e me sinto realizada aqui. Certa vez um rapaz da Paraíba nos procurou porque queria escrever uma carta para algum programa de televisão para que custeassem a viagem de volta para a terra onde ele nasceu. Ele veio andando do bairro Taboão até aqui e chegou sem dinheiro, morto de fome, coitado! Nesse dia foi só a primeira carta que ele escreveu. O homem passou um tempo morando em abrigos de São Bernardo e retornando sempre para pedir que escrevêssemos outra carta para ele. Ficamos muito felizes ao saber que ele finalmente conseguiu uma passagem para voltar para casa. São histórias desse tipo que fazem esse trabalho ser tão gratificante.

Voz a quem não tem

Ao contar a história do paraibano, a “escrevedora” Sônia Maria Cesari citou apenas um dos trabalhos feitos pelo programa oferecido no Poupatempo de São Bernardo e em outras quatro unidades, duas na Capital e duas na Grande São Paulo. Além de escrever cartas para parentes e programas de televisão, as pessoas procuram os voluntários também para preencher formulários, elaborar currículos e ter voz diante das autoridades. É o caso da dona de casa Alexandra Aparecida da Silva, 33 anos, que decidiu mandar uma carta para o secretário de Saúde de São Bernardo, Arthur Chioro. Tímida, Alexandra se aproximou sem conhecer direito o serviço, mas ficou sabendo que ali poderia enviar a correspondência ao titular da Pasta no município.

Há cinco anos Alexandra acorda 4h20 da manhã para levar o filho ao Hospital São Paulo, onde o menino de 13 anos recebe tratamento gratuito para a doença. No entanto, tem de pagar o transporte que os leva até lá. Sem emprego fixo, depende de bicos para se manter. A mão leve de Dina, com as unhas pintadas de um vermelho vivo, percebem a dor na voz contida de Alexandra. Dina também é mãe de um menino e entende a preocupação da mulher sentada diante de si. A identificação fica fácil e a letra trabalhada e desenhada de Dina desliza fácil pelo papel pautado.

Ilustríssimo senhor Arthur Chioro, digníssimo secretário de Saúde:


Meu nome é Alexandra Aparecida da Silva, sou moradora de São Bernardo há 33 anos, e estou com sérios problemas de saúde em relação a meu segundo filho, Henrique Roberto. Foi constatado um quadro de fibromialgia. Sabe senhor secretário, o serviço de saúde não dispõe de médico reumatologista e tenho de arcar com os custos do tratamento que meu filho faz em São Paulo. Gostaria que os senhores desse mais atenção para isso. Atenciosamente.


Alexandra Aparecida da Silva

Alexandra suspira quando coloca a carta na caixa de correio amarela ao lado do balcão de atendimento do programa. Seu nome, naquele momento, é esperança. É isso que as “escrevedoras” do programa proporcionam: a crença de que, talvez, um dia, as coisas vão melhorar.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Por um mundo mais igual

Cenário: Parada do Orgulho LGBT de Santo André. Domingão, sol, cor e alegria para falar de coisa séria. O resultado, modesto, está aqui pra quem quiser ler.


Por um mundo mais igual

Quatro vidas, quatro histórias e uma só palavra: preconceito

Foto: Luciano Vicioni


Preconceito: atitude, sentimento ou parecer insensato, de natureza hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância Fonte: Dicionário Houaiss

Nash, Lorrane, Mandy e Mari. Quatro vidas, quatro histórias, todas unidas pela mesma palavra: preconceito. Velado ou escancarado, nas ruas ou em casa, desde cedo tiveram de aprender a lidar com insultos e cara feia apenas por ter uma opção diferente da considerada “normal”. Nash e Lorrane são amigos, gays, e gostam de se vestir como mulheres. Mandy e Mari, lésbicas, namoram há quatro meses. Os quatro ajudaram a colorir a 6ª Parada do Orgulho LGBT de Santo André no último domingo (25/04).

Nash Enjoy, 22 anos, preparou-se especialmente para a ocasião. Veste blusa listrada de vermelho e preto e calça jeans colada. Nos pés, sandálias femininas. No rosto, maquiagem. O cabelo liso é cheio de mechas loiras. Nash conheceu o preconceito nas ruas.

- Descobri que era gay com 12 anos, e desde então gosto de me vestir como mulher. Isso atrai comentários desagradáveis. Me chamam de viadinho pra baixo, não gosto nem de lembrar. Se ficar pensando nisso, não vivo.

Amiga de Nash, Lorrane Lapice, 17 anos, também está vestida para a Parada: os cabelos pretos com mechas vermelhas meticulosamente escovados, o capricho na maquiagem, com batom lilás e olhos bem delineados, a blusinha estampada com shortinho jeans curto. Aprendo com ela que, quando estão montados, ou seja, vestidos com roupas femininas, os travestis gostam de ser tratados por artigos femininos. O preconceito que Lorrane experimenta acontece dentro do grupo LGBT.

- Muitos gays não gostam de namorar com travestis, porque as pessoas confundem com prostituição. Nem toda travesti é prostituta.

Lorrane sabe o que fala: namorou durante um mês com um rapaz, que a deixou por causa de sua opção em se vestir como mulher.

- Azar o dele. Até minha mãe e minha irmã me aceitam como sou e me ajudam com a maquiagem e as bijus. Por que vou ficar com alguém que não me quer assim?

Em família

Para Mari, 19 anos, as coisas não foram tão fáceis dentro de casa. Para ela, o preconceito começa em família. A jovem de unhas compridas pintadas de verde e cabelos coloridos de vermelho conheceu Mandy, 21 anos, quando ambas eram crianças. Após dez anos sem contato, voltaram a se ver no casamento de uma prima de Mari. Ambas já haviam experimentado relacionamentos com pessoas do mesmo sexo e resolveram dar uma chance ao acaso. A chance vem dando certo há quatro meses, mas apenas a mãe de Mari sabe do relacionamento.

- Ela não aceita muito bem, e nem penso em contar para o meu pai. Seria difícil para ele.

A família de Mandy aceita o namoro e é na casa dela que ambas se refugiam. A mãe de Mandy, porém, também teve dificuldades para lidar com a notícia. Foi ela quem tocou no assunto quando a jovem completou 18 anos.

- Filha, você é bonita, estuda, trabalha, mas só ouve Ana Carolina e só liga mulher aqui atrás de você. Você é lésbica?

- Você quer saber a verdade?

- Quero.

- Sou.

- Então ganhei mais um filho homem.

Mandy balança a cabeça e dá risada ao relembrar o diálogo com a mãe. Com dois irmãos em casa, tem na ponta da língua a resposta que deu à progenitora:

- Continuo sendo mulher. Não mudei o que tenho no meio das pernas.

É assim. O preconceito se manifesta até mesmo nos casos em que parece haver certo entendimento por parte do outro. Compreender e aceitar a opção sexual das pessoas é um desafio social, mas é essencial para garantir o que é delas por direito: a opção de ser feliz independentemente de sexo.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Sushi

Esse texto não se trata de uma reportagem, mas de um exercício que fizemos durante a aula de Escrita Total na ABJL, ministrada pelo professor Edvaldo Pereira Lima. Super recomendo o método, que mistura técnicas de escrita com as pesquisas mais avançadas sobre neurologia e comportamento humano.

Para se ter uma ideia (sem acento), esse texto foi escrito em 12 minutos, durante os quais eu não podia parar de escrever por nem um segundo. Antes de produzi-lo, fiz um mapa mental com a palavra sushi ao centro e com outras palavras que esta primeira me lembrava. Então, quando escrevi o texto, a coisa fluiu de tal forma que saiu isso aí, que vocês vão ler abaixo praticamente da forma como eu escrevi, corrigindo apenas eventuais erros de português, porque não podemos nos preocupar com isso enquanto praticamos a escrita rápida (nome desse método).

Aí vai:

Sushi

Por Camila Galvez


Foto: Camila Galvez

Ele gostava de sushi, e era quase um ritual obsessivo. Toda sexta-feira à noite, saia da aula e rumava para o restaurante pequenino e quase sempre vazio naquele horário. Observava o sushiman preparar o rolinho, primeiro a alga, depois o arroz e por fim o peixe. Sentia cheiro de areia e de mar e de infinito enquanto observava o colorido do peixe se juntar ao branco do arroz e o escuro da alga.

Não gostava de molhos nem de nada que atrapalhasse o sabor. Achava um crime encharcarem o sushi com shoyu. Como ficava a experiência do sabor inusitado se se quebrasse o encanto molhando o arroz? Não, não era japonês, tampouco do Oriente, mas tinha certeza que em uma de suas muitas vidas havia vivido por lá.

Ele julgava gostar tanto e apreciar tanto aquela arte milenar simplesmente porque ela o lembrava da força do mar. Imperioso, poderoso, ruidoso, regido pelas mares. Mesmo diante de tanta força e poder, sabia ser simples ao abrigar a vida do peixe que serviria depois de alimento par ao homem. O mar, que era tão grande, ficava pequeno ali, naquele diminuto rolinho de sushi. Mas para ele era exatamente aí que morava a graça de se alimentar dessa forma e, de alguma maneira, sentir-se conectado com o mar.

Sabia que era uma espécie de amor, um estranho amor que, como uma donzela das antigas, fazia com que ele retornasse todas as sextas-feiras para sentir o som e ouvir o gosto do mar nos sushis. Era dessa forma única que conseguia sentir-se conectado consigo mesmo. Ia sempre só, para observar rodas de amigos que esporadicamente apareciam por lá e reclamavam da demora. Ele entendia. Não tinha pressa. Sabia que o preparo de um alimento que traz tanto simbolismo e tanto movimento cultural tendia mesmo a demorar. Não se importava. Esse era o seu ritual. Olhar o colorido, sentir o sabor, cheirar o mar, tocar os palitinhos que, mesmo depois de tanto tempo, ainda sentia dificuldades em segurar.

Quando provava um novo sushi, invariavelmente sentia-se naquele mesmo mar. Não era exatamente o sabor o responsável pela sensação, ele sabia, mas sim o simbolismo implícito naquele simples ato de abrir a boca e degustar. Todos os seus sentidos eram avivados pelo alimento, mas era o cheiro de mar que se fazia mais presente, mais intenso, mais forte, fazendo com que se lembrasse de tudo o que já vivera nas poucas oportunidades que tivera de estar diante da imponência do mar, de suas ondas quebrando e fazendo espuma e arrastando tudo o que estivesse pelo caminho em noite de tempestade.

O sushi era a prova de que algo continuava vivo dentro dele. O colorido era a prova de que as coisas voltariam a fazer sentido. O sabor era o gosto que ele gostaria de ter pela vida. Tudo ali, concentrado num pequeno rolinho que trazia consigo tantas lembranças, tantos sabores, tantas vidas.

Chamassem-no louco, ele não se importaria. Era movido pela água, pelo mar, pelo sushi das sextas-feiras. Por que só às sextas? Não sabia. O que podia afirmar com certeza é que o sushi tinha sabor de mar, amor e saudade. Não se culpava mais. Apenas apreciava. Era aquilo, na verdade, que o fazia continuar. E lembrar-se da forma como ela costumava sorrir quando, às sextas-feiras, ele aparecia feliz em sua casa e a convidava simplesmente para ver o mar pelos olhos de um sushi.