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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Seu Carlos e o sonho de Brasília

Texto gostoso e curtinho sobre um casal de idosos muitoooo simpático que vive em Santo André.

Seu Carlos e o sonho de Brasília


Camila Galvez 

Carlos Gonçalves jura que tem 87 anos, mas Lilia Loureiro Gonçalves, 83, diz que o marido só vai completar essa idade em agosto do ano que vem. Na quarta-feira, o casal de Santo André comemorou outra data especial: 54 anos de casados. O presente que seu Carlos gostaria de dar à mulher e companheira de uma vida depende, porém, da presidente Dilma Rousseff. Ele quer levar dona Lilia à Brasília. E mandou carta para a presidente pedindo passagem e um cicerone para guiar o casal pela capital brasileira.

"Mas não quero ir não. Fazer o quê lá", diz a voluntariosa senhora de óculos de aro transparente. Dona Lilia está sentada ao lado do marido no sofá cheio de enfeites de crochê que ela mesma faz, os braços cruzados sobre o peito. "Ah, mas eu convenço ela, viu?", garante seu Carlos, sem parar de tentar abraçar aquela que chama de "lasquinha de ouro". "A gente se atura", brinca dona Lilia.

O casal vive em um sobrado no Centro de Santo André há sete anos, mas desde 1957, quando se casaram, moram na cidade. Foi nela que criaram seus quatro filhos: Lílian, do primeiro casamento de dona Lilia, mas criada por seu Carlos, Levi, Lóide e Lídia. Todos com a letra L. "Eu quis assim e obriguei ele a registrar", diverte-se dona Lilia. Seu Carlos apenas balança a cabeça em sinal de aprovação e completa: "Mas eu também gostei."

Seu Carlos quer conhecer Brasília e tirar fotos ao lado da mulher com a obra de Oscar Niemeyer ao fundo. Porém, o motivo da viagem não é apenas turístico. Em Brasília, ele quer conhecer também o funcionamento dos Três Poderes. Isso porque o corretor de imóveis, que aos 87 - ou 86 - continua vendendo imóveis, gosta de política. Foi candidato a vereador do município pelo Partido Socialista Brasileiro em três ocasiões. "Não cheguei a ser eleito, mas sempre acompanhei a política da minha cidade e do meu País."

O senhor de cabelos brancos e óculos de aro preto lembra da época da ditadura, em que fugia do Departamento de Ordem Política e Social, o Dops, por defender o socialismo. "Acho que político que rouba deveria pagar com prisão perpétua."

RELIGIÃO

Seu Carlos é um socialista incomum. Apesar de defender as ideias de Karl Marx e Friedrich Engels, é religioso. Conheceu dona Lilia na igreja que ambos frequentam até hoje, a Presbiteriana. "Esse é o segredo de estarmos juntos: Deus e a religião", garante.

Dona Lilia participa ativamente das atividades da igreja e canta no coral. Os filhos e os dez netos também são evangélicos. "Foi Deus quem me deu força para enfrentar os desafios da vida. Não fiquei rico, mas consegui criar minha família."

O celular de seu Carlos não para de tocar. Ativo, trabalha diariamente das 10h às 16h e ainda encontra tempo para escrever seus textos no computador. Guarda na garagem o carro que não é Brasília, mas sim um Fusca 1976, para quando puder voltar a dirigir. "Preciso antes operar a catarata."

O simpático senhor de sorriso fácil garante que só vai embora desta vida em 2036. "Quero acompanhar a Copa e os Jogos Olímpicos no Brasil, no mínimo. Acho que chego lá". Se depender da alegria e da vontade de viver de seu Carlos, os planos estão garantidos.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O menino da Lina

Olá, pessoas, tudo bem?
Estou para postar esse texto faz tempooo. É meu segundo trabalho da pós na ABJL e achei que ficou satisfatório. Tirei um 9 com ele mas, acima de tudo, me diverti muito ao passar esse delicioso domingo com Américo e Lina Del Corto. Conheçam um pouco mais desse simpático casal ribeirãopirense.

O menino da Lina
 Texto e fotos por Camila Galvez


Oleiro motorista de caminhão músico fotógrafo relojoeiro poeta escritor colecionador compositor dançarino filho pai marido avô ribeiraopirense. Ah! Radialista.

“Nove horas e sete minutos em Ribeirão Pires, nosso horário oficial de Brasília dentro do horário brasileiro de verão. E agora a rádio Pérolas da Serra adentra sua casa sem pedir licença para apresentar o Programa Reminiscências. Hoje, além da nossa equipe, temos uma visita muito especial, mas vou deixar que ela cumprimente os ouvintes por último porque...”

Tavinho interrompe.

“Os últimos serão os primeiros!”

Aos 89 anos, Américo Del Corto fica à vontade diante do microfone. Veste bermuda caqui estilo jovem surfista e camiseta verde onde se lê Programa Reminiscências, Rádio Pérolas da Serra, Ribeirão Pires. O letreiro que avisa quando estamos no ar está apagado. Poderíamos conversar, mas ninguém fala em sinal de respeito à música que toca.

Ribeirão Pires cidade serrana
Acolhedora, saudável, humana
Deste Brasil pequenina fração
Mas muito grande no meu coração
Com tua névoa e frio garoar
Ou então com o sol a brilhar
Ribeirão Pires cidade serrana
O teu povo de ti se ufana.
Berço de bravos imigrantes
Que de suas pátrias distantes
Um dia partiram a buscar
Nova vida no além-mar
Teu nome é Ribeirão Pires
Homenagem à família Pires
Pioneiros desta região
Às margens do ribeirão


Após ouvir o hino de Ribeirão, letra e música do compositor Américo, o letreiro vermelho se acende e cada integrante do programa cumprimenta os ouvintes, inclusive a visita especial – no caso, eu.

Então vem a leitura da Máxima do Dia, texto de autoria de seu Américo sobre como os jovens recebem más influências da TV e Internet e deixam de valorizar a cultura do lugar onde vivem. “Os jovens estão deixando o passado da cidade se perder”.

Toda a história desse senhor de olhos claros e sorriso fácil teve um só objetivo: manter Ribeirão Pires viva.

O letreiro vermelho se apaga quando a música Eterna Saudade, instrumental executado pela Banda da Força Pública do Estado de São Paulo, começa a tocar. Sinal que podemos conversar sem que o ouvinte nos ouça, como um pequeno segredo contado ao pé do ouvido.

“Filha, da última vez que nos encontramos mudou uma coisinha”.

“O que foi, seu Américo?”

“Agora você tem que gritar porque eu to surdo!”

O sotaque é típico do filho de imigrantes italiano. Os dentes meio amarelados pelo tempo se mostram no sorriso de sabedoria de quem viu os anos correrem e sabe que perder parte da audição pode não ser algo tão incapacitante assim. Sua risada não vem sozinha: todos naquele estúdio, exceto eu, passaram dos 80 e, assim como seu Américo, entendem que a vida é um rio que corre mesmo que tentemos alterar seu curso.

Além de Américo Del Corto, apresentam o Programa ReminiscênciasOctávio David Filho, o Tavinho, Idair Ferreira dos Santos, o Didi, e Lina Del Corto, esposa de seu Américo. A única mulher a me abrir as portas do passado de acordeon e bailes e vestidos de cintura marcada e cumprimento no tornozelo me entrega, escondido do marido, um bilhetinho escrito em esferográfica preta e letra arredondada.

“O apelido dele é menino da Lina”.

Seus olhos brilham quando os lábios coloridos pelo batom vermelho esboçam um sorriso de confidente.

Eterna saudade
Antes de se tornar o menino da Lina, Américo foi menino travesso que não queria ir para a escola. O motivo: morria de medo do bicho de saia, ou seja, de mulher. Fora a mãe, não podia nem pensar em chegar perto das donzelas de saias no joelho.

“Eu só queria saber de bola e de olaria. Adorava fazer tijolos de barro na olaria do meu pai. Naquela época, a economia de Ribeirão Pires era basicamente esse tipo de produção artesanal”.

Nas décadas de 1940 e 1950, a cidade chegou a contar 1,2,3... 300 olarias. A dos Del Corto ficava no que hoje é a Vila Fiorentina, e extraía a argila necessária para fabricação dos tijolos de um terreno em frente ao então cemitério da cidade. Hoje o que se vê ali são apenas galpões e indústrias. Da olaria nada restou.

Mas o menino Américo se lembra bem do seu tempo de oleiro e de fujão. Quando chegou aos sete anos, agentes da prefeitura de Santo André, cidade a qual o território ribeirãopirense pertencia na época, vieram à sua casa indicar aos pais que o matriculassem na escola mais próxima. “Eu fugi e me escondi debaixo da cama. Fiz isso por dois anos”.

O pai de seu Américo, Pedro Del Corto, que não era de bater ou dar broncas nos dez filhos que teve, usou um método muito mais eficaz: tirou qualquer regalia do menino e não o deixava mais sair de casa para ajudar na olaria. Além disso, tudo o que Américo pedia era negado: nem mesmo uma balinha ele podia comprar. “Chegou uma hora que eu cansei, né? Mas ainda tinha o problema do bicho de saia”.

Américo não podia ver mulher que saia correndo e chorando para o colo da mãe, dona Luzia Zanetti Del Corto. Ele não sabe explicar o porquê, mas dá risada quando se recorda dessa época. “Dei muita sorte porque quando cheguei para as aulas, o professor era homem!”

À gargalhada boa se misturam os últimos acordes de Aqueles Tempos, de Joelma. A luz vermelha do letreiro acende e estamos de novo no ar. A voz rouca de seu Américo ressoa pelo estúdio. “Agora ouvintes, a charada do dia. Quem sabe qual é o cúmulo da vaca? Você sabe, Tavinho?”

“Olha, eu não sei não, seu Américo, mas se o ouvinte souber, é só ligar pra cá que vamos dar brinde pra quem acertar, hein!”

“Olha, eu também não sei qual é o cúmulo da vaca, mas uma vez, ouvintes, fui passar férias em um sítio na cidade de Cedral. A gente levantava às 5h da manhã porque o homem não deixava dormir mais que isso. Ia lá no curral com o copo na mão e ele falava ‘tira o leite da vaquinha’. A primeira vez eu respondi ‘mas isso eu não faço, ela vai me dar um coice’. Ele insistiu, perdi o medo e coloquei o copo lá. Foi a primeira vez que experimentei o leite de vaca quentinho e com um tiquinho de conhaque, Tavinho”.

“Eu bem que sei, seu Américo, ainda saia o leite espumante, né? Direto do produtor para o consumidor”.

“Então a gente quer saber do ouvinte qual é o cúmulo da vaca!”

Aqueles tempos
A profissão de radialista chegou meio que sem querer à vida de seu Américo, mas era sonho antigo do homem que não consegue ficar parado. “Na juventude tentei montar uma rádio junto com um jornalista, mas infelizmente não deu certo”.

O sonho não morreu e, anos mais tarde, dois conhecidos de seu Américo compraram os aparelhos de uma rádio falida da cidade. “Eles colocaram a Pérolas da Serra pra funcionar e me chamaram para fazer uma entrevista. Então falaram volta amanhã, volta amanhã, e to voltando há quase oito anos”.

O amor pelo rádio só não ganha do amor pela música. Seu Américo fundou a primeira escola de música de Ribeirão Pires em 1953. Ensinava meninos a correr os dedos pelo acordeon e produzir a música que animava os bailinhos da cidade.

Na época forte do instrumento, a escola chegou a ter 90 alunos. Começou a perder espaço quando, nos anos 1970, a guitarra deu um chega pra lá no acordeon e tomou seu espaço como instrumento queridinho da juventude. “Os meninos começaram a gostar de rock and roll, o acordeon ficou nas minhas lembranças”.

Enquanto ensinava acordeon, o músico também tocava na banda da cidade, a Corporação Musical Lira de Ribeirão Pires.

“Acordeon, seu Américo?”

“Nada! Meu instrumento sempre foi o clarinete”.

Anos depois de fechar a escola e deixar a banda, a música continua a fazer parte da vida de seu Américo. Depois de apresentar o programa e antes do arroz com frango e coca-cola na casa da avenida Francisco Monteiro, o rádio toca alto na Pérolas da Serra. O programa é de forró. Na casa de seu Américo, é difícil não ouvir uma melodia, nem que seja o som suave de um mero assobio.

O presente de um poeta
Seu Américo vive na mesma casa desde que tinha um ano. Ele se recorda do barulho dos carros de leite puxados por bois com sinos no pescoço – blem, blem, blem -, e dos homens que vendiam bananas de porta em porta – Olha a banana!

Os anos passaram e o som de cidade interiorana foi substituído pelo barulho dos automóveis e ônibus – vrum, vrum, vrummmm - que percorrem o asfalto quente de uma das principais avenidas de Ribeirão Pires. A mangueira do lava-rápido deixa os automóveis limpinhos e cheirosos – tchaaaaaa – e o supermercado ao lado vende tudo o que você precisa, desde que tenha dinheiro para pagar – trim, trim, trim.

Mas da porta do número 1.244 para dentro, o visitante sente como se voltasse para a Ribeirão Pires de antigamente. Seu Américo guarda muito do passado não apenas em suas memórias, mas também em sua própria casa, que transformou em museu. Canecas, lápis, jornais, caixas de fósforo, moedas e notas, fotos, poemas e até mesmo um exemplar do curso de português por correspondência que fez após a conclusão do antigo ginásio. Tudo remete ao passado que ele faz questão de reviver diariamente.

Descansando em uma das prateleiras de madeira há também algo que seu Américo guarda com carinho de criador. Todos que visitam aquela casa saem de lá com a dedicatória. Eu tenho a minha.

“À grande amiga e repórter, Camila Galvez. Ribeirão Pires, 31/03/2010. Com carinho, o autor Américo Del Corto”.

As páginas do livro Reminiscências: Ribeirão Pires que vi e vivi são fáceis de ser vencidas. De narrativa leve, solta e mais preocupada em registrar as histórias que trazê-las em português estritamente correto, o livro é o projeto de vida de Seu Américo. “Comecei a fazer minhas memórias quando ganhei minha primeira máquina de escrever, lá pelos idos de 1963”, conta.

Só 43 anos depois as páginas metade datilografadas, metade digitadas no computador, se tornariam o livro do qual seu Américo tanto se orgulha. Em 2006, o sonho virou realidade, com direito à noite de autógrafos e dois mil exemplares distribuídos aos moradores da cidade.

Nas paredes do imóvel está também um singelo poeminha, feito à mão em letra comprida e cartolina branca.

À minha mulher Lina
O presente de um poeta

Muitos anos se passaram
E nós envelhecemos
Há 47 anos juntos permanecemos
Enfrentando todas as agruras
Da distância já percorrida,
De um sinuoso roteiro,
Na estrada longa da vida
Hoje, dia de seu aniversário,
Eu lhe dou como presente
Um abraço bem apertado
E o meu amor permanente.
12/10/2004


A cumplicidade e o amor entre o menino Américo e dona Lina completam, em 2011, 54 anos.

- Mulher é problema ruim e problema bom pra gente.

- Américo!

- Mas é verdade. Só que hoje não faço mais nada sem ela. Até pra rádio eu levei, e olha que ela morria de vergonha. Hoje está lá, e apresenta muito bem.

- É, isso é verdade...

Os olhos de dona Lina encontram os de seu Américo, e é como se o casal voltasse aos tempos do bailinho em que se conheceram.

- Ela nem foi convidada.

- Mas eu vim com uma amiga que te conhecia, Américo! E você foi lá me tirar para dançar!

- Claro, a gente vê uma mulher sozinha na pista, fiquei com dó.

Dona Lina mexe a cabeça de um lado para o outro e serve mais frango ao marido. Ele continua sendo o menino da Lina. Sempre.

- E ela não pode nem reclamar quando faço uma travessura. Afinal, sou uma eterna criança.

Nosso tempo
Conheci seu Américo ao mesmo tempo em que descobria a história de Ribeirão.

“Quem é aquele velhinho em cima do palco? Cadê o fotógrafo? O prefeito chegou! Quero terminar logo, tem mais três matérias pra fazer hoje. Olha só que cabelo branquinho e ralo... Hino de Ribeirão Pires? Nem sabia que existia, legal! Ah, esse é o autor! Nossa, vou lá pegar o telefone dele, rende matéria pra outro dia. Quantas escolas tem nesse desfile mesmo?”

Subo na estrutura improvisada sob o teto da antiga rodoviária, desativada depois que a nova – e muito mais colorida – foi erguida perto da estação de trem, tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). É dia 19 de março, aniversário de Ribeirão Pires.

Até então sabia pouco sobre a história da cidade que foi usada como passagem obrigatória para quem vinha de Santos e pretendia chegar aos campos de Piratininga (em tupi, “peixe seco”).

Aprendi no desfile e em pesquisas que, a partir de 1558, o território que hoje é chamado de Ribeirão Pires foi incorporado a São Paulo de Piratininga, mas ainda era pouco ocupado naqueles tempos. Isso começou a mudar com a invasão das terras da Aldeia do Ururaí, depois São Miguel, quando muitas pessoas se espalharam por ali, alcançando a região de Ribeirão Pires no fim do século XV.

A área chamava-se então Caaguaçu, que para os índios significa mata grande, e no século XVII voltaria a ampliar seu processo de povoamento. O motivo: a ganância dos homens durante a fase de exploração das minas de ouro.

Caaguaçu, que estava no caminho para essas minas, passou a ser conhecida, pois até então era quase inexplorada. Houve a formação de um núcleo de povoamento na região, mas apenas a partir de 1714, com a construção da Igreja Nossa Senhora do Pilar, o povoamento de Ribeirão Pires se intensificou pra valer. Hoje a capela é patrimônio tombado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), do Governo do Estado.

Durante o século XIX, o café precisava de meios de transporte, e trouxe consigo a ferrovia para ligar as áreas produtoras ao Porto de Santos. A estação de Ribeirão Pires foi inaugurada em 1885 e, sobre seus trilhos, levas e levas de imigrantes italianos chegaram ao território, com suas massas e seus Mamma Mia! na bagagem. Apenas em 1953, Ribeirão Pires, então com 15 mil habitantes, inclusive seu Américo e dona Lina, foi emancipada de Santo André.

“E aqui nós vamos pondo um ponto final em nosso Reminiscências de hoje, que levou até vocês as músicas do nosso passado. E prometemos voltar no próximo domingo, sempre das nove ao meio dia. Agradecemos a todos pela audiência: continue telefonando, escrevendo e pedindo suas músicas preferidas, pois assim podemos fazer sempre o melhor para vocês. Um bom dia para todos e tenham um final de domingo feliz ao lado de seus familiares com muita paz e compreensão. Esses são os votos de todos nós!”

Tavinho, Didi, dona Lina e eu deixamos nossa despedida aos ouvintes enquanto seu Américo aguarda pelo grand finale. Ele sorri de um modo travesso, e não entendo o porquê até chegar o momento.

“Então, com tudo isso, Américo Del Corto lhes diz MUITO BOM DIA, RIBEIRÃO PIRES!”

A frase é dita em alto e bom som por todos, menos eu, claro, que até me assustei com o animado encerramento.

Mas peraí! Não dá para deixar você, leitor, sem saber: afinal qual era o cúmulo da vaca? “Dar leite em pó, vê se pode”.

Vinte e oito ouvintes ligaram e acertaram, e dois deles foram sorteados para ganhar o prêmio especial de Natal: um relógio de parede com desenho de – claro – vacas.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Capela de Santa Luzia ganha réplica

Queria ter postado essa matéria ontem, dia do meu aniversário e dia de Santa Luzia, mas estava meio chateada com algumas coisas e acabei esquecendo completamente. De qualquer forma, leiam como se fosse dia 13 de dezembro. E aproveitem essa história que mistura fé e patrimônios esquecidos pelo poder público.

Capela de Santa Luzia ganha réplica

Construída em 1925, igreja de Ribeirão Pires caiu no começo do ano por causa das enchentes

Por Camila Galvez

Foto: Edmilson Magalhães/Diário do Grande ABC

Rua Tejo, s/nº, Bairro Santa Luzia, Ribeirão Pires. Quem chega ao endereço encontra o que restou da antiga Capela de Santa Luzia: uma quina de parede. O resto é entulho.

A igrejinha foi erguida em 1925 pelos canteiros, funcionários da Pedreira Santa Clara que trabalhavam no corte da pedra para a transformação em paralelepípedos. Os trabalhadores viram na protetora da visão a salvação para seus olhos ameaçados pelas lascas. Em sua homenagem, inauguraram a capela em 13 de dezembro, dia de Santa Luzia.

Hoje, exatamente 85 anos depois, o abandono do local que já foi sagrado deixaria a santa triste. O aposentado Walter Xavier de Araújo, 74 anos, viveu 20 deles numa casinha simples ao lado da capela e acompanhou de perto sua ruína. No início de 2010, as mãos de seu Walter ajudaram a derrubar o que restou da capela quando ela caiu após mais uma enchente. “Todo ano a água chegava por aqui”, diz, apontando o próprio peito. “Não tinha como a igrejinha ficar de pé”. Os moradores destruíram o que restou da construção porque ela ameaçava cair sobre suas casas.

Segundo o historiador Arnaldo Boaventura, do Instituto do Patrimônio do ABC, a chuva começou a derrubar parte da história de Ribeirão após a chegada do progresso ao Bairro Santa Luzia. “Elevaram o nível da rua para fazer o calçamento, o que fez com que a área da igreja acumulasse toda a água da chuva, formando um grande lago”, explicou.

A perda é irreparável, mas deve ser minimizada com a construção de uma réplica da capela. O projeto é fruto de parceria entre o Instituto, a Prefeitura e a Aciarp (Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Ribeirão Pires) e está orçado em cerca de R$ 250 mil. O principal obstáculo é angariar o montante. “Pretendemos fazer uma reunião com empresários da cidade em janeiro. O objetivo é tentar sensibilizá-los para a causa e incentivá-los a doar dinheiro ou material de construção”, destacou Boaventura.

Desta vez a chuva não é desculpa para abandono: a réplica será construída em um terreno mais alto, na Rua Giácomo A. Scomparim, próximo ao antigo endereço e ao lado da Escola Municipal Yoshyiko Narita. A criançada vai perder uma quadra de esportes, mas a cidade vai ganhar de novo uma de suas igrejas mais antigas.

Protetora - Enquanto a réplica não sai do papel, a santa protetora da visão está sob os cuidados de uma senhora que reclama: “quase não enxergo mais, filha”. Odete Périco Correia tem 89 anos e sempre cuidou da imagem, que sua família trouxe de Portugal. O suor do pai de dona Odete, Diniz Correia, escorreu pela fronte enquanto ele ajudava os canteiros nas obras da capela.

Antes da igrejinha cair, a santa deixou o altar e foi parar na cômoda de dona Odete. Enfeitada com fitas e um terço, exibe túnica verde e rosa e coroa dourada. Nas mãos, carrega os olhos de seus fiéis em um pequeno prato. Os pés estão descalços, assim como os de dona Odete, escondidos sob o cobertor que ela usa para se aquecer, embora o sol lá fora esteja a pino.

O filho de dona Odete, Renato Périco, 57, está acostumado a ver a santa na casa da mãe. Ao ser questionado se ela voltará para o altar da réplica da capela, ele ri. “Acho que minha mãe não vai deixar não”. E dona Odete completa. “A santa só sai daqui quando eu morrer”.


Patrimônios da cidade estão em ruínas

Ribeirão Pires é uma cidade em ruínas, ao menos no que diz respeito à história. Desde 2005 não há Conselho Municipal do Patrimônio no município. A atual administração revogou o decreto que concedia o tombamento de sete imóveis, entre eles a Capela Santa Cruz, as igrejas de Santo Antônio, Matriz, São José, Anglicana, o Prédio Vila Souza e o casarão da família Richers. Os únicos bens tombados pelo Governo do Estado são a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, a mais antiga do Grande ABC, e a Estação Ferroviária.

Outros locais que guardam a memória dos moradores estão se deteriorando. Exemplo disso é a Fábrica de Sal, no Centro. O prédio de tijolo aparente e a chaminé remontam ao passado, mas estão corroídos pelo cloreto de sódio refinado ali. Parte do acervo do Museu Municipal ainda está no prédio, fechado pela prefeitura há cerca de dois anos. Pela janela de vidro sujo é possível enxergar caixas com documentos, um piano, um banner da Secretaria de Educação e uma réplica em miniatura do prédio, entre outros objetos, molhados por água da chuva que infiltrou pelo telhado.

A funcionária pública Lídia Ambrosio dos Santos, 50, lembra-se bem da época em que a filha estudou piano e fez parte do coral da Escola de Música, que ocupou a antiga Fábrica de Sal. “A gente podia vir aqui, sentar nos bancos do lado de fora e ouvir a melodia a qualquer hora”.

A Vila Operária da Pedreira, a maior de Ribeirão Pires, é outro patrimônio perdido. Das 20 casas construídas para os trabalhadores, restam apenas quatro. As demais foram demolidas pelos proprietários da pedreira, que tem interesses comerciais no terreno próximo ao traçado do Trecho Leste do Rodoanel. As casas que resistem em pé foram alteradas em sua arquitetura original, datada do início do século XX.

A dona de casa Margarete Maria de Jesus, 50, é uma das que resistem no local. “Meus filhos nasceram e se criaram aqui, não quero sair”, diz.

Demolição - O antigo Casarão dos Mansuetto, importante família que viveu e investiu no município, foi construído no início da década de 1950, e começou a ser demolido neste ano. A prefeitura embargou a demolição tarde demais. Agora resta pouco do antigo prédio histórico que abrigou uma pizzaria nos últimos anos.

Um dos proprietários se comprometeu a ceder ao patrimônio público as peças consideradas de interesse histórico. O brasão da família, esculpido em mármore italiano, é um dos artefatos que será preservado.

Outro prédio em risco fica próximo à estação de trem e pertenceu à família Eid. Na década de 1930, abrigou o maior armazém de secos e molhados de Ribeirão Pires. Hoje deverá ser demolido para dar lugar a uma passarela da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).


Curso de restauradores aguarda verba do Ministério da Cultura

A formação de mão de obra especializada em restauração em Ribeirão Pires poderia ajudar a criar uma cultura de preservação de patrimônios históricos. Essa é a opinião de Arnaldo Boaventura, do Instituto do Patrimônio do ABC. O município aguarda verba de R$ 48 mil para instalar o segundo módulo do Curso de Formação de Jovens Restauradores.

A iniciativa do Instituto prevê investimento total de R$ 180 mil para formar turmas de restauradores nas sete cidades. Em 2009, São Bernardo inaugurou a iniciativa, formando 50 jovens nas artes de pintura em afresco, marcenaria, vitrais e gesso, além de aulas de violão e educação patrimonial.

Em Ribeirão, a previsão é formar mais 50 restauradores, com idades entre 16 e 24 anos. O curso tem duração de 200 horas e emite certificado. “Com jovens especializados e conscientes, podemos ajudar a reerguer o patrimônio histórico do município”, garante Boaventura. O Ministério da Cultura, porém, ainda não tem data para liberação da verba.


Ribeirão Pires cria Departamento de Patrimônio Histórico

Após cinco anos da extinção do Conselho do Patrimônio Histórico de Ribeirão Pires, a Prefeitura iniciou neste mês a instalação do Departamento de Patrimônio Histórico da cidade, que integra a Secretaria de Esportes, Turismo, Cultura, Juventude e Lazer. Composto por cinco funcionários, a sede será no Teatro Municipal Euclides Menato, que abriga algumas obras de valor histórico do município. A intenção é digitalizá-las e criar um museu virtual a partir de março do ano que vem.

O pesquisador Arnaldo Boaventura, do Instituto do Patrimônio do ABC, ficará responsável pela coordenação do museu e dos bens patrimoniais, e Talita Ramos dos Santos, pela assessoria de atividades turísticas.

Entre as medidas urgentes destacadas pelos novos funcionários está a restauração dos patrimônios históricos tombados pelo governo do Estado. “Precisamos agilizar os trabalhos na Igreja de Nossa Senhora do Pilar e na Estação Ferroviária para manter a história da cidade viva”, disse Talita. Elaborar uma lista de bens que deverão ser tombados no município também é um dos projetos previstos para 2011, segundo Arnaldo.

O orçamento do novo departamento, porém, ainda é incerto, conforme o secretário Luis Gustavo Pinheiro Volpi. “Vamos discutir isso com o prefeito Clóvis Volpi, mas acredito que essa será uma das prioridades. Queremos transformar os patrimônios em atrações turísticas e atrair mais visitantes para a Estância”, destacou Luis Gustavo.

Para tanto, Talita prevê instalar um projeto turístico que levará crianças e jovens dos sete aos 20 anos para conhecer diversos pontos históricos do município. “A intenção é promover um jogo recreativo e criar a cultura de preservação do patrimônio nos mais jovens”, destacou.

Museu - Por enquanto, o acervo da cidade será apenas virtual, mas a intenção é construir um museu físico no futuro. Enquanto o projeto não sai do papel, obras e documentos históricos estão sendo reunidos e digitalizados para posteriormente ficarem expostos em três pontos do município: o Teatro Municipal Euclides Menato, a sede da Secretaria de Esportes e o Paço Municipal. O custo dos equipamentos, que possibilitarão a interação dos visitantes, é da ordem de R$ 42 mil.

Segundo Volpi, a prioridade é retirar parte do acervo guardado na antiga Fábrica de Sal, ameaçado pela contaminação das paredes. “Sabemos que aquele material está se deteriorando e precisará ser restaurado antes de fazer parte do museu”, admitiu.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

79 anos de equilíbrio

Conhecer dona Phenicia me emocionou em todos os sentidos: por sua garra, sua determinação, sua simpatia, seu jeito de me receber, tudo. Dona Phenicia provocou em mim risos e lágrimas, uma experiência inesquecível e intensa. A cada dia me sinto mais grata por conhecer histórias desse tipo, e por poder narrá-las do jeito que as vejo e sinto.

E para quem quiser ver o desempenho da equilibrista, é só acessar o vídeo no site do Diário do Grande ABC, clicando aqui.

79 anos de equilíbrio


Com nome de princesa e jeito de bailarina, Phenicia Annunciatta Alves de Araújo Crivellaro Motta se apresenta pela primeira vez no Circo Escola


Por Camila Galvez

Foto: Nário Barbosa/Diário do Grande ABC


A sapatilha branca pisa firme no arame, que não tem mais do que um dedo de espessura. Os pés delicados de bailarina desfilam enquanto uma das mãos, enrugada pela idade, busca apoio no professor. A outra vai esticada para garantir o equilíbrio, e se move com graça enquanto ela caminha. A música toca alto, ritmo latino, e o público está de boca aberta.

Então, vem o bambolê, e ela levanta os pés sem se abalar para passar por dentro do objeto. Seu rosto reflete concentração. A maquiagem azul borra no canto do olho, mas em nenhum momento ela desequilibra. A expressão é séria, compenetrada. É a primeira vez que ela sobe no arame para se apresentar no Circo Escola de Diadema.

Phenicia Annunciatta Alves de Araújo Crivellaro Motta nasceu em 23 de março de 1931 e ganhou nome de princesa. A lona branca de estrelas vermelhas erguida no Jardim União se transformou em seu castelo na noite de quinta-feira. Seus súditos foram familiares e amigos de pessoas comuns, que se tornaram artistas no encerramento das atividades do Circo Escola. Phenicia também é artista. Escolheu ser bailarina.

Mas antes Phenicia relutou. Quem a arrastou para o circo foi uma de suas cinco filhas, Giovana, e as netas Beatriz e Verônica. A família chegou à lona em março. "No começo, eu vinha só acompanhar, ficava no cantinho, sentada, fazendo palavras cruzadas." Há dois anos e oito meses, Phenicia perdeu Dandolo Motta, marido e companheiro por 56 anos. "Estava triste, mas minha filha quis me tirar de casa.

Um dia o circo viu Phenicia levantar e, por detrás da cortina do picadeiro, fazer malabares. Daí para o arame foi um pulo, e o rosto antes abatido de viúva ganhou cores. Primeiro uma camada de pó. Depois, a sombra suave aplicada nas pálpebras, que serve de moldura para o traço firme e grosso do lápis de olho azul. Na boca, batom puxado para o vermelho. Nas bochechas, blush para iluminar. "Minha beleza quebrou o espelho", brinca, depois que o vidro se parte no corre-corre que antecede as apresentações.

Cotidiano
Phenicia é dona de casa comum. Dirige até hoje, e aprendeu com o marido a arte de desviar dos malucos no trânsito. "Até trailler eu já puxei", conta, orgulhosa. Dandolo também a ensinou a pescar. "Quando começamos a namorar, tinha nojo da minhoca. Depois pescava mais que ele. O aluno supera o mestre." As lembranças divertem Phenicia quase tanto quanto o circo.

Ela também cozinha massa aos domingos, como boa filha de italianos que é, nascida no bairro do Bixiga, na Capital. "Faço um molho que é uma beleza, deixo ferver por três horas para tirar a acidez do tomate. A família adora o resultado", explica. Durante a semana, ela também ajuda Giovana a fazer salgados e doces para vender em Diadema, onde mora há oito anos.

O circo não é a única arte na vida dessa senhora de pés de bailarina e nome de princesa. Seus dedos longos de unhas bem feitas já passaram pelas cordas do violão e pelas teclas do piano. "Aprendi a tocar porque queria supervisionar as aulas das minhas filhas, saber se estavam aprendendo mesmo", diz a exigente mãe.

Vida de circo
Para se equilibrar no arame, Phenicia treinou por três meses. "Fazer algo útil na vida exige dedicação", ensina, com a sabedoria de quem se doou para o marido e os filhos. "Minha meta é conseguir me apresentar sozinha, sem ninguém segurar minha mão. Quem sabe no ano que vem", vislumbra.

Denis Oliveira, professor de Educação Física e responsável por ensinar Phenicia a ser bailarina do arame, derrete-se pela aluna mais velha do Circo-Escola. "Ela é capaz de caminhar sozinha. Provou isso durante as aulas", garante. Denis acredita que o arame ajuda Phenicia a recuperar o equilíbrio perdido com o acúmulo dos anos.

Na verdade, Phenicia nunca o perdeu. Ele estava ali, talvez meio escondido quando o marido se foi, mas ao encerrar o número com uma reverência e ser aplaudida pelo público, a princesa o toma para si com plenitude. "O circo fez bem para ela, mudou a maneira como enxerga a vida", comemora a filha Giovana.

Phenicia foi esposa, é mãe e avó, dona de casa, cozinheira, princesa e bailarina. Phenicia poderia ser você.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Reminiscências de Américo

Conheci Américo Del Corto e sua esposa, Lina Maria Del Corto, no desfile cívico do aniversário de Ribeirão Pires, cidade do ABC Paulista. Na ocasião, chamou-me a atenção a vitalidade do senhor que, mesmo com cabelos bem branquinhos, estava no alto do palco para acompanhar a passagem das escolas da cidade, embora para ele e sua mulher houvesse cadeiras de plástico brancas à disposição.

Também foi a primeira vez que ouvi o hino de Ribeirão Pires e soube que ali estava o seu autor. E senti então vontade de conversar com aquele senhor. Naquela barulheira do desfile, consegui pegar apenas seu telefone, que Lina me entregou num cartão. A primeira história que escrevo sobre Américo segue abaixo, e será publicada na coluna Eu ABCD do jornal no qual trabalho. Mas é apenas a primeira de muitas, pois assim como Américo tem muitas reminiscências de Ribeirão, ainda tenho muita história pra contar sobre Américo. Aguardem!

Reminiscências de Américo

Por Camila Galvez

Foto: Andris Bovo (Brigadu!)

Ribeirão Pires cidade serrana
Acolhedora, saudável, humana
Deste Brasil pequenina fração
Mas muito grande no meu coração
Com tua névoa e frio garoar
Ou então com o sol a brilhar
Ribeirão Pires cidade serrana
O teu povo de ti se ufana.
Berço de bravos imigrantes
Que de suas pátrias distantes
Um dia partiram a buscar
Nova vida no além-mar

Teu nome é Ribeirão Pires
Homenagem a família Pires
Pioneiros desta região
Às margens do ribeirão

Muitos dos mais de 112 mil moradores de Ribeirão Pires não sabem a letra do hino da cidade, que o professor Américo Del Corto tem na ponta da língua. Com 88 anos, 87 deles vivendo na mesma casa na avenida Francisco Monteiro, um hoje senhor de olhos azuis, cabelos brancos e óculos de aro grosso relembra diariamente tudo que viu e viveu em seus anos como ribeirãopirense. Ele é o autor da letra e da música, criadas em 1974 mas oficializadas como hino oficial apenas em 1988.

Américo fez de tudo um pouco nesse quase um século de vida. Trabalhou na olaria do pai, Pedro Del Corto, foi motorista de caminhão e fotógrafo amador. Mas sua paixão sempre foi a música. “Desde pequeno via meus irmãos tocando e sempre quis aprender. Mas aqui perto de casa, nos anos 1920, não tinha nada e era difícil ter acesso aos instrumentos musicais. O som que eu mais ouvia era da estrada de ferro e dos carros de boi, que me acordavam toda manhã. Quando me tornei adulto, fui aprender música na escola do Mário Mascarenhas e, depois, abri a minha própria escola. Cheguei a ter 90 alunos de acordeão e registrei tudo em fotos”, relembrou.

Fotos essas que Américo guarda em seu acervo, que reúne ainda troféus, coleções de lápis, caixas de fósforos e moedas antigas, além de recortes de jornais que falam sobre suas realizações. O professor também é autor de “Reminiscências - Ribeirão Pires que vi e vivi”, livro que, de acordo com ele, relata como era a vida naquela época boa que não volta mais. “Não é um livro de história. É um livro sobre gente, sobre como se vivia de verdade nesse tempo. Porque hoje, o que eu vejo aí fora não é vida, não”.

Apesar de não ter se afeiçoado às mudanças trazidas pela passagem do tempo na pequena cidade serrana, o músico e professor não abre mão do computador e das facilidades da Internet. Quem reclama é Lina Maria Del Corto, há 62 anos companheira de Américo. “Quando ele está na frente dessa máquina, esquece até de mim”. Américo rebate: “Ela exagera. O nome dela deveria ser exagero”. Mas não é exagero dizer que Américo tem reminiscências demais para relembrar.