segunda-feira, 4 de abril de 2011

A vida em meio ao nada

Hoje apresento a história do Flávio. Ele e a mãe vivem na Estrada da Pedra Branca, em São Bernardo, em terreno doado pelo antigo proprietário de uma chácara. A chácara foi vendida, eles não tem documentação do imóvel e, por isso, não conseguem receber indenização da Dersa, que retirou de lá os moradores para implantar um parque como compensação ambiental das obras do Rodoanel. E agora eles enfrentam...

A vida em meio ao nada

Família é esquecida em área do futuro Parque Riacho Grande, em São Bernardo

Por Camila Galvez


Foto: Nário Barbosa/Dgabc

O imóvel de número 1.859 da Estrada da Pedra Branca, no Bairro Montanhão, em São Bernardo, pode parecer abandonado, tal como os que resistem de pé em seu entorno. Entretanto, o portão aberto e a figura de boné e blusão recostada ao muro denunciam: ali vive uma família.

Benedita Gonçalves Pereira Peres, 81 anos, e Flávio Eduardo Peres, 44, são mãe e filho. Moram na mesma casa há 16 anos, quando vieram da Vila Gerty, em São Caetano, a convite do antigo proprietário de uma chácara. No terreno oferecido por ele, sem qualquer documentação, ergueram um pequeno imóvel de quatro cômodos.

Há três anos o tormento chegou: as obras do Trecho Sul do Rodoanel trouxeram caminhões carregados de materiais, que provocaram enormes rachaduras nas paredes e agravaram os problemas respiratórios de dona Benedita. “A casa ficava cheia de poeira, e a cama tremia quando os caminhões passavam”, relembra.

Desde que a obra começou, mãe e filho aguardam a hora de serem removidos pela Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S.A.), que pretende implantar na área o Parque Riacho Grande, previsto nas compensações ambientais do Rodoanel. Viram vizinhos receberem indenizações equivalentes a R$ 400 mil pelas chácaras que habitavam às margens da represa Billings. Para eles, porém, restaram o isolamento e a insegurança.

A área que antes tinha mais de 20 vizinhos, hoje não tem nenhum. Algumas casas não foram demolidas e, segundo Peres, tem gente entrando para roubar qualquer coisa, de telhas a fiação. Neste cenário, ele abandonou o emprego de vigilante noturno. “Não posso sair para trabalhar, como vou deixar minha mãe sozinha?”.

Quando vai ao mercado para abastecer a casa, geralmente após dona Benedita receber a aposentadoria, Peres faz toda a compra do mês de uma só vez. “Aqui não tem mercado nem padaria. Não lembro a última vez que comemos pão francês. De vez em quando os pescadores traziam pra nós, mas agora até os barcos estão rareando”, disse.

Distâncias
Depois de caminhar por 20 minutos, Peres finalmente chega ao ponto de ônibus, na Estrada do Montanhão. Dali é mais meia hora até chegar ao Jardim Silvina, onde costuma fazer compras. “Quando chego, ligo pra minha mãe pra saber se ela está bem”, garantiu. Depois, é o supermercado quem entrega as mercadorias.

De repente, uma surpresa: o caminhão de lixo da Prefeitura de São Bernardo cruza a estrada deserta e recolhe os sacos plásticos da casa de Peres. “Eles ainda passam por aqui. E o carteiro também. O telefone funciona. E a televisão. São as nossas distrações”, comentou.

De vez em quando ele também aproveita o tempo bom para pescar nas águas da represa. “Quando cheguei, isso era o paraíso. Agora se tornou o inferno”. E pior: ele não tem ideia de quando vai sair dali. E nem a Dersa, que afirmou estar em negociação com a família, sem prazo para a remoção, embora o cronograma aponte que o parque chegará em maio.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Ela ama os animais

Oi! Tem alguém aí?

Se vocês andam lendo alguma coisa desse blog, se ainda tem paciência para esperar pelas novidades, deixem um recadinho pra eu saber que passaram por aqui.

E hoje segue a história de uma pessoa muito especial que conheci nas minhas andanças como jornalista. Alguns podem dizer que ela é louca, mas o trabalho que ela faz é louvável. Espero que gostem e, se puderem, ajudem nesta causa.

Ela ama os animais

Ana Maria Matenaur cuida de mais de 150 cães e admite: prefere os bichos às pessoas


Por: Camila Galvez

Fotos: Fernando Nonato / DGABC

Logo que se chega ao Parque Riacho Grande, em São Bernardo, é possível avistar cães trotando pelas ruas de paralelepípedos. São de todas as cores: pretos, brancos, marrons, malhados, amarelos. Não tem lar definido e vagam pelas ruas em busca de abrigo e alimento. Cenário parecido com muitas outras ruas da região metropolitana de São Paulo.

Ao parar diante da casa de Ana Maria Matenaur, 57 anos, percebe-se logo que ali vive alguém que ama os animais: cerca de dez cachorros me recebem no portão. Dentro, mais de 70 esperavam para fazer festa, pular e latir sem parar.

“Vivo pelos animais”. É assim que Ana Maria define sua rotina, e não é exagero: há mais de 30 anos ela se dedica exclusivamente a cuidar de cachorros na sua própria casa, que transformou em verdadeiro canil. Recebe ajuda de amigos e parentes para manter o aluguel do imóvel, de R$ 600, e a ração e comida diária para os cachorros, além de remédios, castração e tratamentos veterinários.

Mas não são só os cães que ela tem em casa que recebem tratamento VIP. Por todo o bairro há cerca de 80 animais que são alimentados pelas mãos de Ana Maria. Caso de oito cães que foram abandonados no Parque Estoril e recebem comida da cuidadora duas vezes por dia.

O problema é que, desde a última segunda-feira, Ana Maria foi proibida de entrar dentro do parque para alimentar os animais. “Os veterinários alegam que vão dar uma solução para os bichos. Mas não podem deixar meus meninos passando fome. Isso me parte o coração”.

Memória
Os animais do Estoril têm nome, assim como os outros bichinhos de quem Ana Maria cuida. E não pense que a protetora tem dificuldades para se lembrar: ela aponta com precisão cada um deles: Caramelo, Dafne, Spike e Dalila. Os outros quatro (Scooby, Petita, Pretinha e Brady) não apareceram para comer. “Se eu não entro, como vão saber que estou aqui?”.

A briga com o veterinário do parque é séria. Ele garante que a forma como a cuidadora alimenta os animais é inadequada e, por isso, ela foi impedida de entrar na área verde. Ana Maria oferece a comida em folhas de jornais, pois alega não ter condições de adquirir vasilhames para cada animal. “A verdade é que eles acham que eu sou louca”. Ela dá de ombros. “Fazer o quê?”

Loucura
Ana Maria já fez loucura pelos bichos. Ela também vendeu tudo o que tinha dentro de casa para garantir o sustento dos cachorros. Ao invés de móveis, os cômodos são tomados por camas e cobertores para os animais, além de sacos e sacos de ração e arroz especial. Ela dorme em um sofá, num cantinho da casa, rodeada pelos cães. “Gosto mais de bicho do que de gente”, garantiu.

E não é a toa: em dezembro de 2009, a protetora registrou boletim de ocorrência após ser atacada por um adolescente e uma jovem grávida quando tentava resgatar Tonha, uma pit-bull que vagava pelas redondezas. Mais de um ano depois, Ana Maria ainda tem os dentes tortos por causa da surra e um dedo quebrado que nunca se curou.

Mesmo assim, não pretende desistir de seus cachorros. “Vou continuar cuidando deles até o fim. É minha missão”.

Se você tem o mesmo espírito, que tal ajudar a Ana Maria nesta empreitada? Ela recebe qualquer tipo de doação, desde itens para cães até móveis e roupas usadas, que ela revende. Interessados em patrocinar o projeto ou ajudar de alguma maneira, basta entrar em contato pelos telefones 4354-0973 ou 6853-5910.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Ensaio Pessoal

Ensaio Pessoal também é Jornalismo Literário. O ensaio abaixo foi minha primeira tentativa, produzido durante a maravilhosa aula do Edvaldo Pereira Lima.

Enquanto leio o livro O ano do pensamento mágico, de Joan Didion (recomendo), continuo buscando inspiração para lembrar se algum episódio da minha vida valeria um ensaio pessoal. Tenho alguns em mente, mas acho que nenhum forte o suficiente para ser um TCC dessa pós que, por si só, transformou a minha vida em todos os sentidos.

É, eu sumi. As coisas andam meio complicadas, ando meio sem tempo de mergulhar no Jornalismo Literário como gostaria. Por enquanto, faço um convite para que mergulhem um tiquinho dentro do oceano que sou eu. E descubram...

Por que escrevo?

Por: Camila Galvez

Uma folha quadriculada, de papel pautado, seis linhas preenchidas com espaço entre cada uma delas. Letra meio desgrenhada de criança, mas redonda. Lá estava o espantalho feliz, sorrindo pra mim. Desenho nunca foi o meu forte, mas pintava com gosto. O problema era que muitas vezes cansava de forçar o lápis no meio do caminho. A força maior sempre dediquei às letras pequenas no papel.

Tinha sete anos e um mundo de possibilidades se desenrolava diante de mim: a folha quadriculada e pautada era um passaporte que me levaria sempre para a mesma viagem, não importa o que eu escreva. A viagem era sempre para dentro de mim.

- Parabéns, Camila! Vou mostrar seu texto para as outras salas, está ótimo.

Mostrar minha primeira redação para as outras salas? Que erro! Me acostumei com a ideia de que gosto de ser lida, gosto de saber que agrado, que organizo as palavras como se elas pudessem ser domadas. Como seu fosse capaz de dominá-las. Essa é a impressão que quero passar quando escrevo: de que faço tudo de maneira consciente, medida, pensada. Que emprego técnicas, métodos, meios e fins estéticos para alcançar aquele resultado.

A impressão que meu texto passa, porém, é falsa como uma nota de R$ 3. As palavras sempre me devoraram. Escrever o que gosto é me deixar levar por elas, deixar que elas façam esse estranho balé mental todas as vezes antes de se deitarem sobre o papel que as coloco, imortalizadas ali até o próximo cesto de lixo, seja real ou virtual.

Tenho um exército de letras à disposição, e é com elas que satisfaço minha necessidade crescente e constante de escrever sempre mais e melhor. Mas é um exército sem general, e eu também sou um soldado. Caminho com as letras e preciso delas para ter força. Sem a dominação que elas mantêm sobre mim, quem seria eu?

Não seria, com certeza, a adolescente que a partir dos 12 anos ganhou os três concursos de redação da escola em que estudava. A sala de leitura que eu havia devorado, pequena demais para mim, era o palco para minhas leituras interpretativas. Rostos de expectativa me estimulavam a prosseguir com meu teatro até o fim, sempre trágico, meu exército cumprindo o papel não apenas de me dominar, mas de dominar os que me ouvem e leem.

Vivi com a ficção escrevendo em primeiro lugar para mim, e para os outros logo em seguida. Não faz sentido escrever para não ser lido. Escrever cansa, dói a mão, a cabeça, às vezes até as idéias doem. Se não houvesse o prêmio, o fato de saber que as palavras também dominam os outros como elas me dominam enquanto escrevo, nada faria sentido.

Se perdi horas e dias escrevendo baseada em histórias de outros – e dos outros - foi porque quis ser lida. É egoísmo, e não há porque ter vergonha de dizer. Encontrar reconhecimento no próximo. Alcançar a dominação pelas letras, esses sinais gráficos tão traiçoeiros, é o que todo escritor almeja alcançar no fim.

- Prima, hoje perguntaram na loja que fui fazer compras se eu era parente da Mia Galvez.
- Como assim? Sério?

- É! É por causa do meu sobrenome no cartão de crédito, a menina reconheceu e disse que adora suas histórias.

O exército ganhou mais uma vez, mas não sem deixar um rastro de morte pelo caminho. Eu caio junto com ele todas as vezes, mas levo outros mortos comigo também. A palavra domina. Escrever é um ato egoísta. E humano.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Alojados

Feliz 2011, pessoal!

Agora que finalmente meu primeiro texto produzido para a pós-graduação foi publicado no Texto Vivo, posso disponibilizar aos leitores daqui. O professor provavelmente não gostou do meu título, mas preferi manter no original ao publicar aqui porque a ideia faz referência à música "Alagados", dos Paralamas do Sucesso, da qual gosto muito e que tem a ver com o tema.

A reportagem fala sobre a vida dos moradores dos alojamentos do Jardim Santo André, um bairro de Santo André que sofre muito com enchentes e deslizamentos nos períodos chuvosos. Espero que gostem de conhecer personagens como a Rosalina, mulher de palhaço, literalmente, a Claudinéa, muito bondosa e guerreira, e a Débora da Missionários, que adora passear nas Casas Bahia só para sonhar com móveis novos.

Bem vindo, ou bem vinda, ao Jardim Santo André.

Alojados

 A vida nos núcleos-pulmões construídos pela Prefeitura de Santo André para abrigar moradores que perderam tudo nas enchentes

Por: Camila Galvez

Claudinéa, Débora da Missonários e Maria Regina: mulheres de fibra
Foto: Camila Galvez

Favela.

 Fa-ve-la.

Aglomeração de casebres ou choupanas toscamente construídas e desprovidas de condições higiênicas.

- Ah, menino, vieram derrubar sua casa, é? Toma cuidado!

- E aí, sem-teto? Tudo bem, sem-teto? Como vai, sem-teto?

- Oh, sua casa caiu ali, viu?

No Jardim Santo André, as brincadeiras não têm só um fundo de verdade, mas são verdade por inteiro: 1.647 famílias vão ter de sair de lá porque seus imóveis estão localizados em áreas de risco de deslizamentos de terra. Qualquer chuva que tamborila sobre o telhado e faz chegar o sono de muita gente se torna nesse pedaço de chão da cidade de Santo André um pretexto para se começar a rezar.

O bairro possui sua própria divisão de classes: quem tem a plaquinha branca da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) na porta de casa sabe que pode continuar ali e vai fazer parte do plano de urbanização proposto pelo departamento estadual em parceria com a Prefeitura do município. Mas quem tem o “picho”, a marca feita com tinta spray, às vezes vermelha, às vezes azul, tem um triste destino pela frente: alojamento ou bolsa-aluguel de R$ 380 mensais até que haja uma unidade habitacional disponível.

Por enquanto, apenas um projeto de unidades habitacionais da CDHU começa a sair do papel no segundo semestre de 2010, em terreno localizado no próprio bairro e que não deve atender a todas as famílias. A previsão para conseguir uma casa de verdade no Jardim Santo André é de ao menos dois anos. A expectativa de alguns moradores, porém, passa longe disso.

Patrimônio vivo

Rosalina de Sordi, ou simplesmente Rosa, é patrimônio do Jardim Santo André, mas em nada lembra uma estátua ou qualquer outra coisa estática. Na manhã de uma terça-feira fria e chuvosa, acorda de bom humor quando bato em sua porta. Seu gato branco e felpudo é quem me recebe antes mesmo da dona, que veste rapidamente uma blusa de moletom rosa para espantar o frio que entra pela porta aberta. Ela usa calça preta e chinelos de dedo com meias. É com eles que caminha no chão lamacento da rua dos Missionários para me mostrar terrenos que já abrigaram famílias e explicar sobre a angústia dos que terão de deixar o lugar que aprenderam a duras penas a chamar de lar. Rosa é minha porta para o Jardim Santo André.

Ela e o marido chegaram ao bairro nos anos 1980, quando havia cerca de 80 barracos de madeira e uma única casa de tijolos: a deles. Com a casa erguida feito um palácio no meio da favela que começava a se formar, Rosa não agiu como princesa. Se agiu, estava mais para princesa Diana: se misturou com o povo e brigou por melhorias como luz, água encanada, asfalto nas ruas, escola e posto de saúde. Hoje briga para continuar vivendo ali.

Do alto de seus 55 anos, não quer alojamento nem bolsa-aluguel. Abre a janela e vê o vizinho do lado direito ostentar uma plaquinha branca da CDHU. A casa de Rosa, no entanto, tem um “picho” em tinta vermelha para combinar com o adesivo do Partido dos Trabalhadores na janela, ao lado de um vasinho de pimenta, também vermelha, que “espanta o mau olhado”.

- Eu não aguentaria viver em alojamento. Sou velha demais pra isso.

O que Rosa não quer é deixar para trás a história que construiu no Jardim Santo André. Como viúva de palhaço, leva a vida dando risada e rezando para não chorar.

- Ajudava meu marido quando ele se apresentava para a criançada do bairro. Hoje vejo as crianças entrarem cada vez mais cedo pro tráfico de drogas. Que opção elas têm? Sabe, no começo eu não gostava daqui. Mas fui me adaptando e agora não troco por nada.

Seus olhos azuis lacrimejam. Não sei se é por causa da luz do dia, para quem acabou de acordar, ou se é o prenúncio do choro mesmo.

O dia em que a terra caiu

Outros olhos, desta vez os de Maria Regina da Silva, estão perdidos no horizonte e parecem vislumbrar novamente a cena relatada por sua voz. No dia em que a terra desceu pela primeira vez em um dos morros do Jardim Santo André, Maria cozinhava e seu filho mais velho tomava banho. O jovem saiu de casa nu, e ela sangrando.

Tudo começou com um barulho pequeno de pedrinha rolando, que virou um estrondo de tempestade quando a terra finalmente cedeu com força de avalanche. Estalos, telhas quebrando, madeiras de barracos rachando ao meio e gritos de socorro compunham uma estranha trilha sonora de filme de terror.

- Sai daí, menino, que o morro está descendo!

Foi o que a mãe conseguiu gritar antes que o fogão viesse em sua direção, uma chuva de comida quente e vidro quebrado que perfurou sua pele e a fez sangrar. Pratos se estilhaçaram, colheres ficaram cobertas de barro, todas as lâmpadas do barraco estouraram ao mesmo tempo. Mas Maria continuou vivendo no que restou de seu lar por cerca de um mês. Até que a tragédia voltou ao lugar.

Em 21 de janeiro de 2010 o pedreiro Antônio Soares Ribeiro foi soterrado por terra, lixo e restos de barracos que caíram sobre muitos outros moradores. Vizinhos acreditam que ele, no entanto, dormia na hora do ocorrido e, por isso, não teve tempo para abandonar o barraco.

- Quando a Defesa Civil achou o corpo, ele estava coberto com um cobertor igual o meu. Os olhos, a boca, tudo estava cheio de lama.

Quem me aponta o cobertor de flores verde e bege secando no varal é outra Maria, de sobrenome Lenice Pereira, que viveu o mesmo inferno que tirou a vida de Antonio e fez com que muita gente dali perdesse a casa e tudo o que tinha. Ao menos quatro famílias que vivem hoje nos alojamentos vieram desse morro, que não era considerado área de risco iminente em estudo feito pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) no bairro.

- Não gosto nem de lembrar o que passamos. As crianças choravam de fome. A gente não tinha mais talheres pra comer, e nem comida, porque a maior parte estragou. Comemos o que dava pra comer com as mãos.

Se a situação está melhor agora, não é ainda o que as Marias do Jardim Santo André almejam. As Marias querem casa. Hoje, são alojadas.

Alojamento.

 A-lo-ja-men-to.

 Ação ou efeito de alojar. Abarracamento, acampamento, aquartelamento. Lugar onde alguém ou alguma coisa se aloja.

Os primeiros alojamentos chegaram no início deste ano ao bairro que retrata as mazelas habitacionais brasileiras reunidas no mesmo lugar. Ali se vê, quase parede com parede, casas de tijolos, barracos, prédios de apartamentos da CDHU e esses caixotes de madeira chamados pela Prefeitura de núcleos-pulmão. Na Rua dos Dominicanos, primeira a ganhar os alojamentos, há 20 unidades erguidas ao custo de R$ 8,5 mil cada uma. Em fase final de construção, há mais 78 espalhadas por outros locais do bairro.

Cada unidade é feita de quatro paredes de madeirite pintadas de preto. Como cobertura, telhas do tipo brasilit, que esquentam no verão e esfriam no inverno. São coladas parede com parede às vizinhas, formando um tipo de sistema circulatório composto de veias interligadas pelas mesmas dores e sons que se misturam em rádios e televisores de volume alto. A ideia inicial era abrigar famílias com até um filho no menor alojamento, um cômodo de 19 metros quadrados. Claudinéa Pereira da Silva vive num deles com três.

O berço

Dantiele, 11 anos, Marcos, 9 anos, e Ana Giulia, 1 ano e 7 meses, são filhos dessa morena de olhos escuros e alma clara que me faz perguntar como gente que perdeu tudo na vida consegue se levantar e receber quem chega com um sorriso no rosto. A força da fé parece mover o Jardim Santo André, principalmente na casa da irmã Claudinéa. O rádio ligado na música sertaneja de Chitãozinho e Xororó e o alojamento arrumado e limpo, apesar de apertado, são um convite para ficar um pouco mais. Mesmo que a pequena Ana Giulia esteja com bronquite, tossindo sem parar.

A vida de Claudinéa começou difícil. Ainda menina, veio de Atalaia, no interior de Alagoas, com pai, mãe e a irmã Adriana Pereira da Silva, um ano mais velha e que também vive com os três filhos no alojamento. O pai veio em busca de uma vida melhor, como milhares e milhares de retirantes expulsos do Nordeste do país pela pobreza extrema que ainda persiste por lá, tal e qual um mandacaru diante da seca mais assustadora.

A vida não foi tão difícil no Nordeste quanto se tornou na época em que Claudinéa e os filhos foram obrigados a viver num abrigo. Em 21 de dezembro de 2009 cerca de 30 famílias foram enviadas para o ginásio Pedro Dell’Antonia removidas de áreas de risco que ameaçavam ser engolidas pela avalanche de terra, plantas e lixo que deslizou dos morros do Jardim Santo André.

Nos tempos de abrigo no Dell’Antonia, Claudinéa foi o anjo da guarda de muita gente. Ajudava quem podia enquanto cuidava dos três filhos. Porém, uma de suas grandes preocupações, ela confessa, era com o berço da filhinha menor, branco e rosa como manda a tradição.

- Meus dois primeiros filhos não tiveram berço porque não pude comprar. Esse comprei e paguei em prestações. Quando fui parar no abrigo, sumiram com todas as minhas coisas. Achei que tinha perdido o meu berço. Um dia o caminhão chegou com ele. Não me aguentei de felicidade.

Voltaram também a televisão e uma cômoda com a madeira toda estragada, mas que ainda serve para guardar a pouca roupa que a família tem. O resto, cama para ela e para os pequenos, quem garantiu foi um carroceiro que ela alimentou enquanto esteve no abrigo.

O choro não é uma constante na vida da mulher que fuma um cigarro atrás do outro e toma copos de café para espantar a fome. No abrigo chorou sim, mas sem ninguém ver, com o rosto enfiado no travesseiro e na hora de conversar com Deus. Chorou pelos filhos, pelo desespero de não ter um teto para abrigá-los. A maior preocupação de Claudinéa são suas crianças. Dantiele, a filha mais velha, sabe disso.

- Minha mãe e eu dormimos debaixo de uma tenda antes de ir para o abrigo porque o nosso barraco caiu. Depois, dormimos no que sobrou do barraco da minha tia, e tinha um cômodo pra ser dividido entre dez pessoas. Ficamos assim mais de um mês até que não teve mais jeito: levaram a gente para o ginásio e deixaram lá.

A menina que deixa a mãe secar seus cabelos com um secador comprado a prestações relembra aos risos tudo o que passou, mas na hora de estimar quanto tempo a família vai permanecer alojada, Dantiele é pessimista.

- Acho que vamos ficar bem mais que os dois anos que eles disseram.

- Para com isso, menina. Deus há de nos dar uma casa. Ela e o Marcos, meu menino, falam que eu sou muito otimista, que queriam ter toda essa fé que eu tenho de que as coisas vão melhorar. Não sei por que, não sei como, mas sei que vão.

- E quando vocês tiverem a casa de vocês, Claudinéa, como vai ser?

- Eu vou tirar minhas coisas da caixa, minha colcha bonita que usei no Dia das Mães, minhas almofadas que achei no lixo, novinhas. A história dessas almofadas é engraçada. Namorei elas por muito tempo. Elas ficavam num salão de beleza perto do abrigo e, quando passou o Natal, vi que tinham trocado o modelo. Corri olhar no saco de lixo e estava lá. Nem acreditei, parece que eram para ser minhas.

As moças que trabalhavam no salão de beleza deram risada de Claudinéa. Ela não se importou. As almofadas fazem parte do seu sonho por um teto.

Minha casa, minha vida

Sonho esse que Claudinéa compartilha com a irmã, Adriana Pereira da Silva. Converso com Adriana no escuro porque, pela terceira vez naquela quinta-feira, faltava luz no Jardim Santo André. A Prefeitura entregou os alojamentos sem voltagem de 110, necessária para o funcionamento da maioria dos eletrodomésticos vendidos na Região Metropolitana de São Paulo. Para resolver o problema, os moradores fizeram ligações irregulares, popularmente conhecidas como “gatos”, que não dão conta de abastecer todas as unidades e os deixam às escuras algumas vezes por dia, além de preocupados com a possibilidade de um incêndio. A tragédia iminente ronda o Jardim Santo André.

A filha mais nova de Adriana, Débora, de 3 anos, se agarra às pernas da mãe, sentada ao meu lado em um pedaço de madeira improvisado como cama. A menina tem os cabelos despenteados e parece querer chamar nossa atenção enquanto conversamos. A mãe se divide entre me contar sua história e atender a filha. Sua voz transmite rancor quando fala sobre os homens que a tiraram de seu barraco, que ela construiu com o dinheirinho que ganhou dividindo-se entre dois empregos.

- Fomos humilhados. Ameaçaram passar a máquina por cima das casas. Eu perdi tudo na vida: meu lar, meus móveis e minha dignidade.

As sobrancelhas grossas e escuras de Adriana ficam franzidas enquanto ela fala. Seus olhos escuros se estreitam para dizer o quanto ela está contrariada.

- O pior dia da minha vida foi quando cheguei naquele abrigo, mas pouca coisa mudou quando vim para cá. Me sinto em uma prisão.

Adriana trabalha uma vez por semana como diarista e precisa deixar as crianças trancadas no alojamento. A menor fica sob os cuidados da maior, Jenifer, de nove anos. Bruno, de 12, completa o trio.

A mulher que esfrega o chão do alojamento “até sentir o cheiro de limpeza” chegou a ganhar R$ 1.400 quando trabalhava como diarista em casas de família. Tentou, em vão, um financiamento habitacional para comprar a casa própria. Passou inúmeras vezes na agência da Caixa Econômica Federal esperando que seu pedido fosse aprovado. Quando o governo federal anunciou o programa Minha Casa, Minha Vida como uma forma de resolver o déficit habitacional brasileiro, Adriana teve, mais uma vez, esperança. A falta de uma assinatura em sua Carteira de Trabalho e Previdência Social, no entanto, nunca lhe deu o direito a um lar.

Na remoção da área de risco, Adriana perdeu mais que o barraco: perdeu o emprego. Só restou uma patroa.

- Hoje você ganha quanto, Adriana?

- Consigo tirar no máximo R$ 100 por semana. Trabalho de domingo de 15 em 15 dias, mas às vezes a minha patroa fala pra não ir porque não tem dinheiro pra pagar.

Ainda assim, a família de Adriana é a que ganha melhor ali, pois o marido também trabalha. Em oito dos 18 alojamentos que responderam a uma pesquisa informal, a média de renda é o salário mínimo de R$ 510. No Jardim Santo André, o chefe de família continua sendo o marido, caso de 11 dos 18 alojamentos. Mas vem ganhando espaço um outro tipo de chefe: o Bolsa Família, que sustenta exclusivamente três alojamentos, inclusive o de Claudinéa.

A esperança que ela tem em uma vida melhor não contamina a irmã. Adriana não quer esperar uma unidade habitacional. Quer trabalhar para comprar a sua casa e sair dali.

- Não quero mais morar em favela e não acredito em promessas. Vou sair daqui por mim mesma.

Pelo poder do senhor Jesus

Josete Maria de Souza é conhecida por Claudinéa e Adriana como Débora da Missionários não se sabe bem o porquê. Faz parte das 20 famílias que se mudaram no dia 8 de março para um dos caixotes da Dominicanos. Ficou no abrigo antes de chegar ao alojamento, como outras nove famílias que estão ali.

Vive em dois cômodos com cinco dos sete filhos e a mãe, Josefa Lúcia da Conceição Souza. O que mais chama atenção em Josefa são as unhas do dedão de cada mão, enormes, lembrando as do Zé do Caixão. Mas só as unhas do dedão de cada mão. As demais unhas são aparadas. Não há esmalte. Só unha, simples assim.

Josefa quer porque quer voltar para Alto do Rodrigues, no Rio Grande do Norte, onde o quarto marido a espera. Mas de quem ela lembra mesmo é do primeiro, e não é lembrança boa.

- Ele me batia muito. Pois sabe o que fiz um dia, quando cansei de apanhar? Peguei uma faca de cozinha e dei foi na barriga dele. Vi o sangue jorrar, saia que nem bolinha, e molhou tudo a roupa dele, ficou vermelho assim, ensopado. Daí ele me devolveu pra minha mãe e tomei foi uma surra de vara para aprender a respeitar marido.

A sina de mulher que apanha do marido se repetiu com Débora, mas ela parou no primeiro casamento. Diferente da mãe, que sempre foi “cabra macha”, ela não apanhou calada. Achou melhor pegar pela mão os sete filhos e deixar a vida de surras para trás. Foi parar em um barraco no Jardim Santo André.

- Dos que caíram em dezembro do ano passado, só o meu ficou de pé, mas meio assim, sabe?

E pende para o lado como se fosse um prédio torto. Sem ter onde ficar depois que o barraco caiu, foi parar com a mãe no abrigo improvisado no Ginásio Pedro Dell’Antonia, onde ficaram por dois meses. No alojamento, diz estar no céu.

- Deus me abençoou com isso aqui. Sei que não é meu, mas pelo menos tenho um teto que não ameaça cair na minha cabeça.

Mas Débora sonha. Quando conseguir o apartamento da CDHU, quer jogar toda a tranqueira que está no alojamento fora. A mulher de óculos e cabelos brancos que a fazem parecer mais velha do que realmente é gosta de passear com os filhos no Extra ou nas Casas Bahia. Entra nas lojas, caminha por fogões, geladeiras e armários e escolhe o que quer. Seus dedos encostam suavemente no eletrodoméstico e ela mentaliza que ele será seu.

- Pelo poder do senhor Jesus! Mas só quando eu tiver o meu teto pra colocar dentro.

Casa

 Ca.sa

 Nome comum a todas as construções destinadas a moradia. Residência, lar.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Capela de Santa Luzia ganha réplica

Queria ter postado essa matéria ontem, dia do meu aniversário e dia de Santa Luzia, mas estava meio chateada com algumas coisas e acabei esquecendo completamente. De qualquer forma, leiam como se fosse dia 13 de dezembro. E aproveitem essa história que mistura fé e patrimônios esquecidos pelo poder público.

Capela de Santa Luzia ganha réplica

Construída em 1925, igreja de Ribeirão Pires caiu no começo do ano por causa das enchentes

Por Camila Galvez

Foto: Edmilson Magalhães/Diário do Grande ABC

Rua Tejo, s/nº, Bairro Santa Luzia, Ribeirão Pires. Quem chega ao endereço encontra o que restou da antiga Capela de Santa Luzia: uma quina de parede. O resto é entulho.

A igrejinha foi erguida em 1925 pelos canteiros, funcionários da Pedreira Santa Clara que trabalhavam no corte da pedra para a transformação em paralelepípedos. Os trabalhadores viram na protetora da visão a salvação para seus olhos ameaçados pelas lascas. Em sua homenagem, inauguraram a capela em 13 de dezembro, dia de Santa Luzia.

Hoje, exatamente 85 anos depois, o abandono do local que já foi sagrado deixaria a santa triste. O aposentado Walter Xavier de Araújo, 74 anos, viveu 20 deles numa casinha simples ao lado da capela e acompanhou de perto sua ruína. No início de 2010, as mãos de seu Walter ajudaram a derrubar o que restou da capela quando ela caiu após mais uma enchente. “Todo ano a água chegava por aqui”, diz, apontando o próprio peito. “Não tinha como a igrejinha ficar de pé”. Os moradores destruíram o que restou da construção porque ela ameaçava cair sobre suas casas.

Segundo o historiador Arnaldo Boaventura, do Instituto do Patrimônio do ABC, a chuva começou a derrubar parte da história de Ribeirão após a chegada do progresso ao Bairro Santa Luzia. “Elevaram o nível da rua para fazer o calçamento, o que fez com que a área da igreja acumulasse toda a água da chuva, formando um grande lago”, explicou.

A perda é irreparável, mas deve ser minimizada com a construção de uma réplica da capela. O projeto é fruto de parceria entre o Instituto, a Prefeitura e a Aciarp (Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Ribeirão Pires) e está orçado em cerca de R$ 250 mil. O principal obstáculo é angariar o montante. “Pretendemos fazer uma reunião com empresários da cidade em janeiro. O objetivo é tentar sensibilizá-los para a causa e incentivá-los a doar dinheiro ou material de construção”, destacou Boaventura.

Desta vez a chuva não é desculpa para abandono: a réplica será construída em um terreno mais alto, na Rua Giácomo A. Scomparim, próximo ao antigo endereço e ao lado da Escola Municipal Yoshyiko Narita. A criançada vai perder uma quadra de esportes, mas a cidade vai ganhar de novo uma de suas igrejas mais antigas.

Protetora - Enquanto a réplica não sai do papel, a santa protetora da visão está sob os cuidados de uma senhora que reclama: “quase não enxergo mais, filha”. Odete Périco Correia tem 89 anos e sempre cuidou da imagem, que sua família trouxe de Portugal. O suor do pai de dona Odete, Diniz Correia, escorreu pela fronte enquanto ele ajudava os canteiros nas obras da capela.

Antes da igrejinha cair, a santa deixou o altar e foi parar na cômoda de dona Odete. Enfeitada com fitas e um terço, exibe túnica verde e rosa e coroa dourada. Nas mãos, carrega os olhos de seus fiéis em um pequeno prato. Os pés estão descalços, assim como os de dona Odete, escondidos sob o cobertor que ela usa para se aquecer, embora o sol lá fora esteja a pino.

O filho de dona Odete, Renato Périco, 57, está acostumado a ver a santa na casa da mãe. Ao ser questionado se ela voltará para o altar da réplica da capela, ele ri. “Acho que minha mãe não vai deixar não”. E dona Odete completa. “A santa só sai daqui quando eu morrer”.


Patrimônios da cidade estão em ruínas

Ribeirão Pires é uma cidade em ruínas, ao menos no que diz respeito à história. Desde 2005 não há Conselho Municipal do Patrimônio no município. A atual administração revogou o decreto que concedia o tombamento de sete imóveis, entre eles a Capela Santa Cruz, as igrejas de Santo Antônio, Matriz, São José, Anglicana, o Prédio Vila Souza e o casarão da família Richers. Os únicos bens tombados pelo Governo do Estado são a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, a mais antiga do Grande ABC, e a Estação Ferroviária.

Outros locais que guardam a memória dos moradores estão se deteriorando. Exemplo disso é a Fábrica de Sal, no Centro. O prédio de tijolo aparente e a chaminé remontam ao passado, mas estão corroídos pelo cloreto de sódio refinado ali. Parte do acervo do Museu Municipal ainda está no prédio, fechado pela prefeitura há cerca de dois anos. Pela janela de vidro sujo é possível enxergar caixas com documentos, um piano, um banner da Secretaria de Educação e uma réplica em miniatura do prédio, entre outros objetos, molhados por água da chuva que infiltrou pelo telhado.

A funcionária pública Lídia Ambrosio dos Santos, 50, lembra-se bem da época em que a filha estudou piano e fez parte do coral da Escola de Música, que ocupou a antiga Fábrica de Sal. “A gente podia vir aqui, sentar nos bancos do lado de fora e ouvir a melodia a qualquer hora”.

A Vila Operária da Pedreira, a maior de Ribeirão Pires, é outro patrimônio perdido. Das 20 casas construídas para os trabalhadores, restam apenas quatro. As demais foram demolidas pelos proprietários da pedreira, que tem interesses comerciais no terreno próximo ao traçado do Trecho Leste do Rodoanel. As casas que resistem em pé foram alteradas em sua arquitetura original, datada do início do século XX.

A dona de casa Margarete Maria de Jesus, 50, é uma das que resistem no local. “Meus filhos nasceram e se criaram aqui, não quero sair”, diz.

Demolição - O antigo Casarão dos Mansuetto, importante família que viveu e investiu no município, foi construído no início da década de 1950, e começou a ser demolido neste ano. A prefeitura embargou a demolição tarde demais. Agora resta pouco do antigo prédio histórico que abrigou uma pizzaria nos últimos anos.

Um dos proprietários se comprometeu a ceder ao patrimônio público as peças consideradas de interesse histórico. O brasão da família, esculpido em mármore italiano, é um dos artefatos que será preservado.

Outro prédio em risco fica próximo à estação de trem e pertenceu à família Eid. Na década de 1930, abrigou o maior armazém de secos e molhados de Ribeirão Pires. Hoje deverá ser demolido para dar lugar a uma passarela da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).


Curso de restauradores aguarda verba do Ministério da Cultura

A formação de mão de obra especializada em restauração em Ribeirão Pires poderia ajudar a criar uma cultura de preservação de patrimônios históricos. Essa é a opinião de Arnaldo Boaventura, do Instituto do Patrimônio do ABC. O município aguarda verba de R$ 48 mil para instalar o segundo módulo do Curso de Formação de Jovens Restauradores.

A iniciativa do Instituto prevê investimento total de R$ 180 mil para formar turmas de restauradores nas sete cidades. Em 2009, São Bernardo inaugurou a iniciativa, formando 50 jovens nas artes de pintura em afresco, marcenaria, vitrais e gesso, além de aulas de violão e educação patrimonial.

Em Ribeirão, a previsão é formar mais 50 restauradores, com idades entre 16 e 24 anos. O curso tem duração de 200 horas e emite certificado. “Com jovens especializados e conscientes, podemos ajudar a reerguer o patrimônio histórico do município”, garante Boaventura. O Ministério da Cultura, porém, ainda não tem data para liberação da verba.


Ribeirão Pires cria Departamento de Patrimônio Histórico

Após cinco anos da extinção do Conselho do Patrimônio Histórico de Ribeirão Pires, a Prefeitura iniciou neste mês a instalação do Departamento de Patrimônio Histórico da cidade, que integra a Secretaria de Esportes, Turismo, Cultura, Juventude e Lazer. Composto por cinco funcionários, a sede será no Teatro Municipal Euclides Menato, que abriga algumas obras de valor histórico do município. A intenção é digitalizá-las e criar um museu virtual a partir de março do ano que vem.

O pesquisador Arnaldo Boaventura, do Instituto do Patrimônio do ABC, ficará responsável pela coordenação do museu e dos bens patrimoniais, e Talita Ramos dos Santos, pela assessoria de atividades turísticas.

Entre as medidas urgentes destacadas pelos novos funcionários está a restauração dos patrimônios históricos tombados pelo governo do Estado. “Precisamos agilizar os trabalhos na Igreja de Nossa Senhora do Pilar e na Estação Ferroviária para manter a história da cidade viva”, disse Talita. Elaborar uma lista de bens que deverão ser tombados no município também é um dos projetos previstos para 2011, segundo Arnaldo.

O orçamento do novo departamento, porém, ainda é incerto, conforme o secretário Luis Gustavo Pinheiro Volpi. “Vamos discutir isso com o prefeito Clóvis Volpi, mas acredito que essa será uma das prioridades. Queremos transformar os patrimônios em atrações turísticas e atrair mais visitantes para a Estância”, destacou Luis Gustavo.

Para tanto, Talita prevê instalar um projeto turístico que levará crianças e jovens dos sete aos 20 anos para conhecer diversos pontos históricos do município. “A intenção é promover um jogo recreativo e criar a cultura de preservação do patrimônio nos mais jovens”, destacou.

Museu - Por enquanto, o acervo da cidade será apenas virtual, mas a intenção é construir um museu físico no futuro. Enquanto o projeto não sai do papel, obras e documentos históricos estão sendo reunidos e digitalizados para posteriormente ficarem expostos em três pontos do município: o Teatro Municipal Euclides Menato, a sede da Secretaria de Esportes e o Paço Municipal. O custo dos equipamentos, que possibilitarão a interação dos visitantes, é da ordem de R$ 42 mil.

Segundo Volpi, a prioridade é retirar parte do acervo guardado na antiga Fábrica de Sal, ameaçado pela contaminação das paredes. “Sabemos que aquele material está se deteriorando e precisará ser restaurado antes de fazer parte do museu”, admitiu.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

79 anos de equilíbrio

Conhecer dona Phenicia me emocionou em todos os sentidos: por sua garra, sua determinação, sua simpatia, seu jeito de me receber, tudo. Dona Phenicia provocou em mim risos e lágrimas, uma experiência inesquecível e intensa. A cada dia me sinto mais grata por conhecer histórias desse tipo, e por poder narrá-las do jeito que as vejo e sinto.

E para quem quiser ver o desempenho da equilibrista, é só acessar o vídeo no site do Diário do Grande ABC, clicando aqui.

79 anos de equilíbrio


Com nome de princesa e jeito de bailarina, Phenicia Annunciatta Alves de Araújo Crivellaro Motta se apresenta pela primeira vez no Circo Escola


Por Camila Galvez

Foto: Nário Barbosa/Diário do Grande ABC


A sapatilha branca pisa firme no arame, que não tem mais do que um dedo de espessura. Os pés delicados de bailarina desfilam enquanto uma das mãos, enrugada pela idade, busca apoio no professor. A outra vai esticada para garantir o equilíbrio, e se move com graça enquanto ela caminha. A música toca alto, ritmo latino, e o público está de boca aberta.

Então, vem o bambolê, e ela levanta os pés sem se abalar para passar por dentro do objeto. Seu rosto reflete concentração. A maquiagem azul borra no canto do olho, mas em nenhum momento ela desequilibra. A expressão é séria, compenetrada. É a primeira vez que ela sobe no arame para se apresentar no Circo Escola de Diadema.

Phenicia Annunciatta Alves de Araújo Crivellaro Motta nasceu em 23 de março de 1931 e ganhou nome de princesa. A lona branca de estrelas vermelhas erguida no Jardim União se transformou em seu castelo na noite de quinta-feira. Seus súditos foram familiares e amigos de pessoas comuns, que se tornaram artistas no encerramento das atividades do Circo Escola. Phenicia também é artista. Escolheu ser bailarina.

Mas antes Phenicia relutou. Quem a arrastou para o circo foi uma de suas cinco filhas, Giovana, e as netas Beatriz e Verônica. A família chegou à lona em março. "No começo, eu vinha só acompanhar, ficava no cantinho, sentada, fazendo palavras cruzadas." Há dois anos e oito meses, Phenicia perdeu Dandolo Motta, marido e companheiro por 56 anos. "Estava triste, mas minha filha quis me tirar de casa.

Um dia o circo viu Phenicia levantar e, por detrás da cortina do picadeiro, fazer malabares. Daí para o arame foi um pulo, e o rosto antes abatido de viúva ganhou cores. Primeiro uma camada de pó. Depois, a sombra suave aplicada nas pálpebras, que serve de moldura para o traço firme e grosso do lápis de olho azul. Na boca, batom puxado para o vermelho. Nas bochechas, blush para iluminar. "Minha beleza quebrou o espelho", brinca, depois que o vidro se parte no corre-corre que antecede as apresentações.

Cotidiano
Phenicia é dona de casa comum. Dirige até hoje, e aprendeu com o marido a arte de desviar dos malucos no trânsito. "Até trailler eu já puxei", conta, orgulhosa. Dandolo também a ensinou a pescar. "Quando começamos a namorar, tinha nojo da minhoca. Depois pescava mais que ele. O aluno supera o mestre." As lembranças divertem Phenicia quase tanto quanto o circo.

Ela também cozinha massa aos domingos, como boa filha de italianos que é, nascida no bairro do Bixiga, na Capital. "Faço um molho que é uma beleza, deixo ferver por três horas para tirar a acidez do tomate. A família adora o resultado", explica. Durante a semana, ela também ajuda Giovana a fazer salgados e doces para vender em Diadema, onde mora há oito anos.

O circo não é a única arte na vida dessa senhora de pés de bailarina e nome de princesa. Seus dedos longos de unhas bem feitas já passaram pelas cordas do violão e pelas teclas do piano. "Aprendi a tocar porque queria supervisionar as aulas das minhas filhas, saber se estavam aprendendo mesmo", diz a exigente mãe.

Vida de circo
Para se equilibrar no arame, Phenicia treinou por três meses. "Fazer algo útil na vida exige dedicação", ensina, com a sabedoria de quem se doou para o marido e os filhos. "Minha meta é conseguir me apresentar sozinha, sem ninguém segurar minha mão. Quem sabe no ano que vem", vislumbra.

Denis Oliveira, professor de Educação Física e responsável por ensinar Phenicia a ser bailarina do arame, derrete-se pela aluna mais velha do Circo-Escola. "Ela é capaz de caminhar sozinha. Provou isso durante as aulas", garante. Denis acredita que o arame ajuda Phenicia a recuperar o equilíbrio perdido com o acúmulo dos anos.

Na verdade, Phenicia nunca o perdeu. Ele estava ali, talvez meio escondido quando o marido se foi, mas ao encerrar o número com uma reverência e ser aplaudida pelo público, a princesa o toma para si com plenitude. "O circo fez bem para ela, mudou a maneira como enxerga a vida", comemora a filha Giovana.

Phenicia foi esposa, é mãe e avó, dona de casa, cozinheira, princesa e bailarina. Phenicia poderia ser você.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Viajantes do tempo

Não sei se vocês leem ou não, porque nunca vejo comentários por aqui. Mesmo assim a vontade de escrever coisas diferentes permanece. Tenho sorte de conseguir essa abertura nos jornais por onde passo. E espero que continue assim.

Essa história me emocionou bastante e divido agora com vocês.

Viajantes do tempo

Futuros doutores integram projeto de humanização da Faculdade de Medicina do ABC


Por Camila Galvez

Foto: Fernando Nonato/Diário do Grande ABC

Os quatro viajantes e suas malas rústicas entram no quarto de Iriana Aparecida Farina Silva. "Eles acabaram de descer de um trem e vieram contar histórias para mim."

Iriana,48, está internada no Hospital de Ensino Padre Anchieta, em São Bernardo, há um ano e quatro meses. Ela sofre de ELA (esclerose lateral amiotrófica), doença do sistema nervoso que não tem cura. Respira por meio de um oríficio na traqueia, procedimento conhecido como traqueostomia. É a paciente que mais anseia pela visita dos ‘viajantes''.

Ana Maria Blumetti, 26 anos, Ana Carolina de Souza Alencar, 23, Fernando Towata, 23, e Paulo Henrique Barbosa, 21, são futuros doutores. Estudam na FMABC (Faculdade de Medicina do ABC) e fazem parte da primeira turma de contadores de histórias do Projeto Sorrir é Viver, formada neste ano.

Para Iriana, porém, eles são apenas os viajantes. Isso porque sempre carregam uma mala, na qual guardam as histórias e experiências que compartilham com seus atentos ouvintes, sejam eles pacientes de hospitais do Grande ABC ou moradores de asilos e orfanatos. A de Ana Maria, por exemplo, era de seu avô, hoje com 100 anos. "Ele a usou quando veio da Itália", conta.

A de Carol não é tão viajada assim: foi comprada na Praça da República, em São Paulo, e estampa a figura de Charles Chaplin. "Ele é minha fonte de inspiração", diz.

Tempo
Iriana tem companhia no quarto que ocupa. Rosalina Martins Ferreira, 73, está com a doença de Chagas, herança dos tempos de infância vividos em casa de pau a pique, no interior de Minas Gerais. Os olhos de ambas se fixam em Fernando enquanto ele declama O Tempo, poema de Mário Quintana. É o preferido de Iriana. Rosalina ouve pela primeira vez.

Há dez dias internada, ela tem esperanças de voltar logo para casa. Sua fé fica evidente quando o agora ouvidor de histórias pede: "Conte algo para nós, Rosalina".

Com a voz baixa e entrecortada pelo som da respiração de Iriana, Rosalina responde emocionada: "O que eu tenho para falar é da minha fé em Deus e da capacidade que tenho de amar. É isso que vocês trazem para gente, um pouquinho do amor de vocês".

Os futuros médicos saem em busca de novos pacientes, mas deixam a porta aberta nos corações de quem passou pela experiência. "Espero que eles voltem logo", torce Iriana.

Rotina
O Projeto Sorrir é Viver é mais conhecido pelos cursos de formação de clowns, que tem como principais objetivos a humanização do médico e a transformação do ambiente hospitalar. Inspirado nos Doutores da Alegria e na experiência do médico Hunter Patch Adams, formou seis turmas desde 2005, ano em que foi criado por estudantes da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC).

A narração de histórias é novidade no projeto: os primeiros alunos passaram por seis meses de aulas neste ano, de março a outubro, e desde então estão viajando pela região carregando malas cheias de letrinhas e mentes repletas de ideias.

Para a coordenadora de enfermagem do Hospital de Ensino Padre Anchieta, Márcia Mazotti, ouvir histórias auxilia no tratamento dos doentes, principalmente em casos de internações longas. "A alegria dos contadores é contagiante e os pacientes ficam mais motivados para enfrentar os desafios impostos pela patologia", garante.

Eles não são os únicos beneficiados por esses jovens vestidos de preto, com boinas na cabeça e suspensório colorido. Márcia comenta que os funcionários também esperam pela chegada dos jovens contadores de histórias. "O hospital sai da rotina, ganha mais vida, mais som. O ambiente muda e isso faz bem para todos", afirma.