terça-feira, 27 de abril de 2010

Por um mundo mais igual

Cenário: Parada do Orgulho LGBT de Santo André. Domingão, sol, cor e alegria para falar de coisa séria. O resultado, modesto, está aqui pra quem quiser ler.


Por um mundo mais igual

Quatro vidas, quatro histórias e uma só palavra: preconceito

Foto: Luciano Vicioni


Preconceito: atitude, sentimento ou parecer insensato, de natureza hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância Fonte: Dicionário Houaiss

Nash, Lorrane, Mandy e Mari. Quatro vidas, quatro histórias, todas unidas pela mesma palavra: preconceito. Velado ou escancarado, nas ruas ou em casa, desde cedo tiveram de aprender a lidar com insultos e cara feia apenas por ter uma opção diferente da considerada “normal”. Nash e Lorrane são amigos, gays, e gostam de se vestir como mulheres. Mandy e Mari, lésbicas, namoram há quatro meses. Os quatro ajudaram a colorir a 6ª Parada do Orgulho LGBT de Santo André no último domingo (25/04).

Nash Enjoy, 22 anos, preparou-se especialmente para a ocasião. Veste blusa listrada de vermelho e preto e calça jeans colada. Nos pés, sandálias femininas. No rosto, maquiagem. O cabelo liso é cheio de mechas loiras. Nash conheceu o preconceito nas ruas.

- Descobri que era gay com 12 anos, e desde então gosto de me vestir como mulher. Isso atrai comentários desagradáveis. Me chamam de viadinho pra baixo, não gosto nem de lembrar. Se ficar pensando nisso, não vivo.

Amiga de Nash, Lorrane Lapice, 17 anos, também está vestida para a Parada: os cabelos pretos com mechas vermelhas meticulosamente escovados, o capricho na maquiagem, com batom lilás e olhos bem delineados, a blusinha estampada com shortinho jeans curto. Aprendo com ela que, quando estão montados, ou seja, vestidos com roupas femininas, os travestis gostam de ser tratados por artigos femininos. O preconceito que Lorrane experimenta acontece dentro do grupo LGBT.

- Muitos gays não gostam de namorar com travestis, porque as pessoas confundem com prostituição. Nem toda travesti é prostituta.

Lorrane sabe o que fala: namorou durante um mês com um rapaz, que a deixou por causa de sua opção em se vestir como mulher.

- Azar o dele. Até minha mãe e minha irmã me aceitam como sou e me ajudam com a maquiagem e as bijus. Por que vou ficar com alguém que não me quer assim?

Em família

Para Mari, 19 anos, as coisas não foram tão fáceis dentro de casa. Para ela, o preconceito começa em família. A jovem de unhas compridas pintadas de verde e cabelos coloridos de vermelho conheceu Mandy, 21 anos, quando ambas eram crianças. Após dez anos sem contato, voltaram a se ver no casamento de uma prima de Mari. Ambas já haviam experimentado relacionamentos com pessoas do mesmo sexo e resolveram dar uma chance ao acaso. A chance vem dando certo há quatro meses, mas apenas a mãe de Mari sabe do relacionamento.

- Ela não aceita muito bem, e nem penso em contar para o meu pai. Seria difícil para ele.

A família de Mandy aceita o namoro e é na casa dela que ambas se refugiam. A mãe de Mandy, porém, também teve dificuldades para lidar com a notícia. Foi ela quem tocou no assunto quando a jovem completou 18 anos.

- Filha, você é bonita, estuda, trabalha, mas só ouve Ana Carolina e só liga mulher aqui atrás de você. Você é lésbica?

- Você quer saber a verdade?

- Quero.

- Sou.

- Então ganhei mais um filho homem.

Mandy balança a cabeça e dá risada ao relembrar o diálogo com a mãe. Com dois irmãos em casa, tem na ponta da língua a resposta que deu à progenitora:

- Continuo sendo mulher. Não mudei o que tenho no meio das pernas.

É assim. O preconceito se manifesta até mesmo nos casos em que parece haver certo entendimento por parte do outro. Compreender e aceitar a opção sexual das pessoas é um desafio social, mas é essencial para garantir o que é delas por direito: a opção de ser feliz independentemente de sexo.

3 comentários:

  1. Querida Mióca, que delícia ler esse texto.

    Muiiito bom. Adorei a forma como vc abordou o tema, descrevendo principalmente as condições que vivem e viveram essas pessoas. Infelizmente, por mais que o tema de homossexualidade seja visto hoje de maneira mais "natural", ainda há pessoas que não conseguer compreender que o importante é ser feliz. Parabéns pela matéria.

    bjo, Anjinho

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  2. Um dos grandes méritos da escritora é trazer novidades ao leitor com assuntos aparentemente batidos. Apenas aparentemente. Ela sempre consegue 'cavar' uma novidade, como falar desse preconceito do grupo LGBT com as - ou os, sei lá rs - travestis.

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  3. Jaqueline (da Pós)9 de agosto de 2010 13:09

    Gostei muito do seu texto Camila. Bastante leve e agradável de se ler. Bjs

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